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Atividade Física Drogas anabolizantes: situação atual

Dr. José Maria Santarem

Estamos vivendo hoje, com relação às drogas anabolizantes, uma situação semelhante à que ocorreu com o tabagismo no início do século: a utilização por grande número de pessoas aparentando boa saúde tende a estimular a noção de segurança. O cinema pode nos dar uma idéia de como era difundido o hábito de fumar. Filmes da época quase que invariavelmente mostravam os artistas fumando. Mais de cinqüenta anos foram necessários para que as estatísticas da incidência de doenças pudessem ser feitas, e graças à esses dados, hoje está bem estabelecido que o fumo produz diversos males à saúde. Mesmo assim, muitos continuam fumando. Os fumantes doentes estão nos hospitais, em casa, ou já não estão entre nós, enquanto que as pessoas que fumam em público aparentam boa saúde. Geralmente muitos anos de tabagismo são necessários para que ocorram doenças graves, e mesmo assim não ocorrerão em todas as pessoas. E antes de adoecer, as pessoas terão fumado em público durante muitos anos com aparente boa saúde.

No caso das drogas anabolizantes, geralmente esteróides androgênicos derivados da testosterona, as estatísticas ainda são precárias devido a que a sua utilização por parcelas consideráveis da população é relativamente recente. Os estudos experimentais, nos quais drogas são administradas pelos pesquisadores e seus efeitos analisados, sempre com conclusões mais confiáveis, são dificultados no caso de anabolizantes hormonais em pessoas saudáveis por razões éticas. Alguns trabalhos experimentais são encontrados na literatura, envolvendo a utilização de esteróides anabolizantes para o tratamento de doenças como anemias, alguns tipos de câncer e reposição hormonal. Também existem trabalhos experimentais estudando os efeitos de derivados da testosterona com o objetivo de contracepção masculina. O tipo de trabalho científico mais freqüentemente encontrado sobre o tema são os relatos de casos clínicos, onde o uso de anabolizantes esteróides é associado à ocorrência de doenças mais ou menos graves. Esses trabalhos não permitem concluir que a relação entre as drogas e as doenças sejam do tipo "causa e efeito" mas no mínimo, existe uma ação desencadeante de alterações patológicas em pessoas predispostas. Estudos observacionais, transversais e longitudinais, em grupos de usuários de drogas anabolizantes têm contribuído para a identificação das intercorrências patológicas mais freqüentes.

Em recente pesquisa, um questionário foi distribuído para 1.667 pessoas em academias do Reino Unido, e publicado no International Journal of Sports Medicine, 18:557-62, 1992. Entre os homens interrogados 9,1 % usavam drogas anabolizantes contra 2,3% entre as mulheres. Drogas injetáveis e orais foram utilizadas, em doses até 34 vezes as doses terapêuticas. Entre os usuários, apenas 28% eram atletas de competição. O sistema de ciclos interrompidos foi utilizado por 88% dos usuários, e 77% relataram ter percebido efeitos colaterais: atrofia do testículo em 56% dos casos, ginecomastia em 52%, dificuldade para dormir em 37%, hipertensão arterial em 36%, lesões tendinosas em 26%, sangramento nasal em 22% e resfriados freqüentes em 16%. Entre as mulheres foram relatados casos de irregularidades menstruais, hipertrofia do clitóris, diminuição das mamas, engrossamento da voz, acne, queda de cabelo e hirsutismo. Por ocasião da interrupção dos ciclos foram freqüentes os relatos de tonturas, fraqueza, perda da libido e dores articulares.

Considerando a totalidade dos trabalhos publicados até o presente, podemos concluir que o uso abusivo de esteróides anabolizantes apresenta alta incidência de efeitos indesejáveis a curto prazo, embora nem sempre graves. A longo prazo, doenças graves poderão ser desencadeadas dependendo das drogas empregadas, do tempo de utilização, das doses e da predisposição individual.

As drogas de uso oral estão mais associadas com os tumores do fígado, com a icterícia obstrutiva, com a formação de cistos hepáticos hemorrágicos, com o desencadeamento da diabetes e com as doenças cardíacas coronarianas. Os mecanismos de doença são o maior metabolismo hepático das drogas, aumento da resistência celular à insulina e depressão do HDL-colesterol. As drogas injetáveis produzem mais ginecomastia e maior tendência para a trombose, cerebral e periférica, devido à maior formação metabólica de hormônios femininos estrogênicos. O uso de antiestrogênicos em associação com as drogas injetáveis, prática comum entre atletas, não é aconselhável por diminuir o efeito anabolizante e produzir os mesmos efeitos tóxicos dos esteróides orais. O fechamento prematuro das linhas de crescimento nas epífises ósseas dos adolescentes, a hipertensão arterial e o câncer da próstata têm sido relatados em associação tanto com os esteróides orais quanto com os injetáveis. Todos os esteróides anabolizantes parecem ser igualmente úteis para estimular a massa muscular, a força e a redução de gordura, embora com dosagens diferentes.

Durante o uso dos esteróides anabolizantes, geralmente em períodos de seis à oito semanas, ocorre acentuada diminuição da fertilidade, aumento da libido e diminuição da testosterona endógena. Admite-se que a depressão e a letargia frequentemente relatadas ao interromper a droga possam estar relacionadas com baixos níveis de testosterona endógena. A impotência sexual parece ser mais consequência de fenômenos depressivos, às vezes intensos, e que podem levar ao suicídio. Muitos usuários ficam dependentes dos esteróides por conta do mal-estar produzido pela supressão da droga. Frequentemente é necessária a intervenção psiquiátrica. O retorno aos níveis normais de produções hormonal costuma ocorrer em cerca de três meses após o fim do ciclo, mas existem relatos de hipogonadismo permanente consequente à muitos anos de utilização contínua de esteróides anabolizantes. A fertilidade normal pode tardar de seis meses à um ano, justificando a proposta de utilização dos esteróides androgênicos como anticoncepcionais masculinos. A utilização de gonadotrofina coriônica ao final de cada ciclo, também prática comum entre atletas para estimular os testículos parecer ser normalmente desnecessária e aumenta a incidência de ginecomastia. Quando constatado o hipogonadismo, o tratamento com gonadotrofina necessita ser bastante prolongado.

As mortes que têm sido associadas aos esteróides anabolizantes parecem ser decorrentes do uso contínuo prolongado ou de doses abusivas. As causas dos óbitos foram infartos cardíacos, trombose cerebral, hemorragia hepática, sangramento de varizes do esôfago, miocardiopatia, metástases de tumores da próstata e do fígado, infecções por depressão da imunidade ou contaminação por medicamentos falsificados (AIDS e hepatite).

Drogas alternativas como o GH (hormônio do crescimento) também não são seguras. A incidência do câncer de próstata aumenta de 3 a 4 vezes e ocorre com frequência o hipotireoidismo, com depressão do metabolismo e tendência para a obesidade, cardiopatia, impotência sexual, ginecomastia, sindrome do túnel do carpo, entre outros problemas. Além disto, o custo mensal de utilização de GH pode chegar aos US$ 4.000,00.

Uma importante questão é saber se existe maneira segura para a utilização de esteróides androgênicos. Admite-se que doses menores e utilização interrompida tenham menor probabilidade de produzir efeitos indesejáveis, mas a quantificação dos riscos individuais ainda não é possível. Duas situações são indesejáveis no presente momento: exagerar o risco dos anabolizantes hormonais e ignorar a possibilidade de ocorrência de doenças graves.

Com relação aos riscos, pode-se imaginar que na melhor das hipóteses será possível chegar à esquemas de administração com segurança semelhante à dos anticoncepcionais femininos. A utilização de esteróides estrogênicos por mulheres de todo o mundo com finalidade de contracepção tem efeitos colaterais muito semelhantes aos dos anabolizantes hormonais, mas ocupam muito menos espaço na mídia. A nossa sociedade parece considerar a contracepção uma razão justificável para que as mulheres corram riscos para a saúde, mesmo com as estatísticas demonstrando a ocorrência de doenças graves. Por outro lado, atletas e treinadores despreparados costumam desconsiderar os riscos dos esteróides, baseados na aparente boa saúde de alguns campeões. Essa atitude é indefensável e coloca muitos jovens em situação crítica para a saúde.

No caso da musculação, a noção de que aumentos significativos de massa muscular são impossíveis sem o uso de drogas contribui para agravar a situação. O que ocorre é que todas as pessoas apresentam progressos com treinamento bem orientado e alimentação adequada, mas alguns têm potencial para massa muscular muito maior do que outros. Apesar de que as drogas anabolizantes podem sem dúvida favorecer o crescimento dos músculos, elas não são formadoras de campeões. Olhar para um campeão de musculação e atribuir todo o seu sucesso à drogas é uma injustiça. Na realidade trata-se do resultado de treinamento dedicado e alimentação cuidadosa atuando em base genética favorável. Os efeitos das drogas são aditivos à esses fatores básicos. Nas academias é comum encontrarmos pessoas sem volume e qualidade musculares apesar do uso de anabolizantes hormonais e por outro lado, pessoas muito grandes e fortes que jamais utilizaram drogas. Estes são poucos, como também são poucos os grandes campeões, porque o potencial genético para grande massa muscular é raro.

A situação atual pode ser resumida da seguinte maneira: quem está utilizando drogas está correndo riscos de saúde ainda não bem conhecidos. Esquemas racionais de utilização são mais seguros mas não totalmente isentos de riscos. Assim sendo, a decisão deverá ser sempre uma decisão pessoal. A pessoa deve ponderar os riscos e benefícios e decidir racionalmente. Aos profissionais compete informar e não influenciar na decisão.

No caso de atletas de competição, o uso de drogas transcende a questão da saúde individual. As drogas que favorecem o desempenho nas diversas modalidades são consideradas eticamente indesejáveis e portanto ilícitas, independentemente de produzirem danos para a saúde. Aos dirigentes esportivos cabe coibir o seu uso enquanto prevalecerem as regras atuais, cuja validade moral poderá ou não mudar com o passar do tempo.

  Publicado em 07.11.1998

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