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Intoxicações: atualização prática

Dr. Anthony Wong

INTRODUÇÃO

As intoxicações, acidentais ou intencionais, são importantes causas de doenças. A OMS estima que 1,5 a 3% da população é intoxicada anualmente. Para o Brasil, isto representa até 4.800.000 novos casos a cada ano. Cerca de 0,1 a 0,4 % das intoxicações resultam em óbito.

Mais de 70% das intoxicações são agudas, isto é, ocorrem em menos de 24 horas. Em aproximadamente 90% destas, a exposição ao(s) agente(s) tóxico(s) ou toxicante(s) se dá por ingestão, isto é por via oral.

Por esta razão, sempre foi dada muita ênfase à descontaminação do sistema digestivo como medida de emergência eficaz nas intoxicações.

No entanto, estudos e reavaliações nos últimos cinco anos têm colocado estas medidas sob crítica e revisão (e até reversão!!!).

Os métodos de descontaminação gastrintestinal são:

bullet DILUIÇÃO
bullet NEUTRALIZAÇÃO
bullet INDUÇÃO DE VÔMITOS (EMESE)
bullet LAVAGEM GÁSTRICA
bullet ADMINISTRAÇÃO DE CARVÃO ATIVADO
bullet ADMINISTRAÇÃO DE CATÁRTICOS E LAXANTES
bullet LAVAGEM INTESTINAL

DILUIÇÃO

A diluição está contra-indicada em qualquer circunstância e, principalmente, na ingestão de álcalis corrosivos e ácidos fortes, pois esta medida aumenta a superfície exposta à queimadura. Na ingestão de outras substâncias, a diluição aumenta a quantidade absorvida, principalmente de xaropes e comprimidos, piorando a intoxicação.

NEUTRALIZAÇÃO

A neutralização também está formalmente contra-indicada em qualquer ingestão e, principalmente, de ácidos e álcalis. Esta medida aumenta intensamente a temperatura local (em até 76ºC), acrescentando a queimadura térmica à lesão química.

INDUÇÃO DE VÔMITOS (EMESE)

A indicação de emese hoje é muito controvertida e está limitada apenas às ingestões de quantidades significantes de substâncias reconhecidamente tóxicas. Além de eficácia e utilidade relativamente pequenas, a relação risco/benefício é razoavelmente elevada e até inaceitável em determinadas circunstâncias.

Hoje, é considerada menos eficaz do que a lavagem gástrica (em até 50%). Deve ser realizada até 1 hora após a ingestão do toxicante e apenas se a vítima estiver plenamente consciente. Sua indicação se limita ao lar ou pequena clínica que não possua outros recursos.

A indução de vômitos deve ser feita com xarope de ipeca (que pode ser tomado com leite, refrigerantes, medicamentos antiemetizantes e mesmo carvão ativado). A dose recomendada é de 15ml para pacientes pediátricos e de 30-60ml em pacientes adultos. Pode ser repetido se não houver resposta satisfatória em 30 minutos.

A substituição pelo detergente deve ser restrita pois existem diversas formulações, algumas complexas (e.g., em pó, de máquina, lavadora de pratos que contém soda cáustica, etc.). O uso de xampu infantil pode ser indicado, desde que a mãe o aceite! Nestes casos a dose é igual à do xarope de ipeca.

As contra-indicações à indução de vômitos são:

bullet Paciente idoso ou debilitado
bullet Criança menor de 9 meses
bullet Paciente com cardiopatia potencialmente descompensável
bullet Paciente portador de insuficiência respiratória aguda ou crônica
bullet Paciente com depressão neurológica, inclusive sonolência

LAVAGEM GÁSTRICA

A lavagem gástrica sempre foi muito abusada nas salas de emergência. Embora mais eficaz do que emese, sua indicação, hoje, também está mais limitada.

A lavagem gástrica deve ser realizada se a ingestão do toxicante ocorreu a menos de 1 hora no paciente plenamente consciente, sem depressão neurológica, respiratória ou cardíaca. Lembrar de sempre proteger as vias respiratórias. Mesmo no caso de depressores como o fenobarbital, quantidades insignificantes são recuperáveis após uma hora. É importante ressaltar que a presença de restos de comprimidos não significa a presença da substância ativa, mas de talco ou outro veículo.

A lavagem gástrica deve ser realizada com sonda gástrica de grosso calibre com orifícios terminal e laterais - em adultos: 34 a 40F e em crianças: 24 a 28F. A lavagem pode ser mais eficiente em determinados casos (fenobarbital, aminofilina, antidepressivo tricíclico), se carvão ativado for acrescentado.

Lembrar de administrar carvão ativado ao término quando não houver contraindicação.

As contra-indicações à lavagem gástrica são as mesmas acima para indução de vômitos.
  Publicado em: 18.05.1997

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