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"Extasiado diante
de si mesmo, sem mover-se do lugar... o rosto
fixo, absorvido com este espetáculo, ele parece
uma estátua de mármore.
Deitado no solo,
contemplando dois astros, que são os seus
próprios olhos, contempla seus cabelos, sua
face, seu pescoço de marfim, sua boca
encantadora e a brancura de sua pele. Admira
tudo aquilo que suscita sua própria admiração.
Em sua
ingenuidade, deseja a si mesmo. A si mesmo
dedica seus próprios louvores. Ele mesmo inspira
os ardores que sente. Ele é o elemento do fogo
que ele próprio acende. E quantas vezes dirigiu
beijos vãos à onda enganadora! Quantas vezes,
para segurar seu pescoço ali refletido,
inutilmente mergulhou os braços no meio das
águas.
Não sabe o que
esta vendo, mas o que vê extasia-o, e o mesmo
erro que lhe engana os olhos acende-lhe a
cobiça. Crédula criança, de que servem estes
vãos esforços para possuir uma aparência
fugidia? O objeto de teu desejo não existe. O
objeto de teu amor, vira-te e o farás
desaparecer.
Esta sombra que
vês, é um reflexo da tua imagem. Não é nada em
si mesma; foi contigo que ela apareceu, e
persiste, e tua partida a dissipará, se tivesses
a coragem de partir."
Metamorfoses (Origem de Narciso)
Ovídio (43 A.C.- 18 D.C.)
Há alguns anos,
começamos a notar uma alteração no tipo de
pacientes que eram internados em instituições
psiquiátricas. Houve uma diminuição das
internações devidas aos quadros psiquiátricos
clássicos, tais como Esquizofrenias, Psicoses
Maníaco Depressivas, etc... e um aumento
considerável do ABUSO DE DROGAS.
Ao mesmo tempo, no consultório, aumentou um tipo
especifico de paciente, cuja queixa, para busca
de terapia, era de "sensação de vazio",
"ausência de vínculos afetivos", "sentir-se
incompreendido pela maioria das pessoas (as
quais em geral eram consideradas inferiores,
burras, mal informadas, etc...). Durante a
entrevista, surgia a colocação de uso de drogas,
em geral cocaína, mas este fato não era
relacionado com dependência. Todos eles tinham
plena convicção de "estar no controle da
situação", podendo parar a qualquer momento.
Mesmo no ambiente terapêutico, a necessidade de
controle parecia fundamental e absolutamente
idêntica em todos os casos.
A diminuição de internações dos casos clássicos,
é obviamente explicada pêlos progressos na
psicofarmacologia. Um paciente bem medicado pode
ter uma vida razoavelmente normal, com
seguimento ambulatorial e Psicoterapia, ficando
a internação restrita a "um momento psicótico",
durante o qual a pessoa pode apresentar perigo
para si ou para outros.
Na realidade, vivemos um momento especial do
desenvolvimento humano, no qual as ciências
neurológicas começam a ser funcionais PARA e COM
as pessoas. Podemos melhorar o humor, diminuir a
ansiedade, fazer desaparecer alucinações e
delírios, isso só para falar no uso de
medicação.
Com as terapias, pode-se modificar
comportamentos, integrar personalidades, buscar
o caminho do auto conhecimento. Enfim, é um
momento de abertura de possibilidades infinitas.
Ai, apareceram os drogadependentes, e lá se foi
toda essa feliz e agradável sensação de
conhecimento, possibilidades de cura e
onipotência medica.
Conhecíamos o que as drogas fazem no e com o
organismo. Eles sabiam muito mas e nem sequer
acreditavam que qualquer tipo de lesão pudesse
com eles ocorrer. Nós médicos somos
"alarmistas", "exagerados", "moralistas".
E afinal de
contas, não é o que todo mundo faz?
Começamos a notar que o abuso de drogas
relacionava-se, não só com um tipo de estrutura
de personalidade, mas também a um caráter
social.
O que relatamos a seguir é um trabalho de dois
anos com esse tipo de paciente.
A - Alguns relatos de usuários
X - 33 anos, 25 internações (polidependência,
preferência por cocaína).
"...eu preciso ficar fora de tudo. Eu sei que
preciso. Eu preciso mudar o meu pai, mas eu sei
que não adianta.
Tudo, eu já tive. Consigo tudo, e depois, gasto
tudo em drogas. É assim, de repente."
Y - 22 anos, 6 internações (polidependência,
preferência por cocaína).
"...é isso. Eu quero me drogar. Eu preciso me
anestesiar. É esse ódio que vem e que eu preciso
anestesiar.
E ninguém entende que é isso que eu quero. É
ficar muito loco, por que só assim eu agüento. É
por isso que eu vou arrombar a porta do posto de
enfermagem e roubar remédio".
Z - 55 anos, 8 internações (álcool).
"...no fim, a gente entende, mas não perdoa. É
esse ódio que não é possível. É o pai que deu
tudo, mas era um carrasco. Eu consegui
superá-lo. Ganhei mais do que ele, mas só
bebendo um pouco às vezes passa, mas é só isso,
eu não sou alcoólatra, é apenas stress".
W - 15 anos, 3 internações (polidependente).
"...ora, é só para relaxar, me sentir bem. É
claro que eu largo qualquer coisa a hora que
quiser, mas não quero. Eu não quero ser como
todo mundo, eu sou diferente. Esse negócio
careta de ter hora para tudo não é comigo.
É nesse grupinho que a gente se entende. Eu
sempre morei com a minha avó e agora a minha mãe
quer mandar na minha vida. Acho que só meu pai
gostava de mim. Eu só percebi isso quando ele
morreu. Ele bebia, mas era muito bom".
K - 14 anos, primeira internação (cocaína).
"...e qual é o problema? Me puseram aqui a
força, eu não precisava.
Foi só um fim-de-semana, ai eu fui parar na UTI.
Eu não sabia como usar. Eu só queria esquecer um
tempo. Ninguém se importa. Todo mundo tem a sua
própria vida. Por que eu não posso ter a minha
do jeito que eu quiser? ".
L - 10 internações (derivados do ópio).
"...eu fiz bastante dinheiro com isso. É fácil
vender e dá mais do que qualquer trabalho. Ai,
eu também comecei a usar, mas só socialmente,
mas agora esta complicando o trabalho, porque
acabo gastando mais do que vendo. É por isso que
estou aqui ".
Q - 43 anos, 8 internações (polidependência).
"...as pessoas não entendem. Eu não quero uma
vida sem sentido, dessas ai que a gente vê.
Trabalhar com meu pai e do jeito que ele quer?
Eu só mais uma vítima dessa sociedade
capitalista. Roubam tudo de mim, e eu não aceito
isso. Nem as crianças me deixam ver. Isso é
doença? Isso é me obrigar a ser como todo mundo
".
B - Observações Clinicas
Ao observar, falar e estar com pacientes,
aproveitamos também para observar que
sentimentos e emoções despertavam em nós. Entre
os mais constantes, aparecia uma esquisita
sensação de irrealidade, como estivéssemos
falando com estatuas, e não com pessoas.
A imagem que provocavam era a de Dorian Gray,
aquela personagem de Oscar Wilde que não
envelhece, é lindo, socialmente encantador,
sedutor, enquanto que o quadro que é seu
retrato, sofre todas as modificações físicas
resultantes, não só da passagem do tempo, mas
também das emoções de tristeza, medo,
basicamente horror. Quando Dorian Gray olha para
seu quadro, ele se mata, ao tentar destruir a
pintura, porque não consegue suportar tamanho
horror.
Por que o Drogado é Narcisista e o que é
Narcisismo.
Tal como o Narcisista, o drogadependentes tem
caracteristicamente fantasias de grandiosidade,
falta de empatia, incapacidade de aceitar
críticas, faz relações espoliativas, (18) tem a
sensação de "ser especial", preocupa-se com
sucesso e poder de forma excessiva, exige
atenção e admiração constantes. É o amor pela
IMAGEM de si mesmo, e para isso, usa dos
mecanismos de Negação e Projeção.
Embora negue quase todos os sentimentos, os mais
negados são: tristeza e medo, pois ambos o faz
sentir vulnerável e negado-os, pode projetar uma
imagem de independência, coragem e força, o que
ilusoriamente faz com que se sinta "no controle
da situação". Segundo Lowen (psiquiatra
americano, criador de Bioenergética), essa
situação se origina num ambiente familiar de
crítica velada, onde o "poder é a autoridade
suprema e a submissão esconde rebeldia e
hostilidade". Todo Narcisista tem profundo medo
de humilhação, e a imagem grandiosa encobre um
sentimento subjacente de inadequação. Assim o
esforço do Narcisista pela aquisição de poder,
deriva de um profundo sentimento de humilhação
sofrida quando criança".
Nem todo Narcisista é um drogadependente, mas
nessa observação, os drogadictos são basicamente
narcisistas. Ambos, ao negar sentimentos,
projetam imagens para compensar essa perda de
sentimento. Atualmente, somos bombardeados
diariamente por imagens que nos ensinam: "como
ficarmos eternamente jovens, como conquistar de
imediato, poder e felicidade, como conquistar
pessoas, como, como, como... Não há a mínima
preocupação com "para que", posto que a
identificação simbólica do poder com a potência
sexual sublinha este grande tipo de sedução.
Assim, na relação com o médico ou com o
terapeuta, este tipo de narcisista entra em luta
pelo poder, e nos casos em que há
prosseguimento, há grande choque quando o
paciente entra em contato com sua impotência,
que em geral deflagra cólera, e é disfarçada
pela tendência auto-destrutiva do drogadicto
(destruição de si como forma de eliminar o
outro, agressor). Assim, eles se identificam
quase completamente com o genitor rejeitante,
negando, o horror da rejeição e tornando-se
"especiais." É por isso também que, na relação
terapêutica e/ou numa internação comportam-se de
forma rebelde, pois por mais que necessitem de
ajuda, não conseguem aceitar sua dependência de
outrém, pois isso é assustador. Precisam
manter-se no controle que por sua vez se
estabelece pela negação dos sentimentos e pela
projeção de suas fantasias. Aceitar o narcisista
é tirar-lhe o controle, e contra isso, o
paciente mobilizará todas suas defesas.
Quem é que não quer a situação de poder? (ser o
único que pode satisfazer plenamente a um dos
pais)
As qualidades ou desejos especialmente
destacados por pacientes drogadictos resumem-se
em:
1. Posso fazer qualquer coisa (onipotência)
2. Todos sabem de minha existência (onipresença)
3. Eu sei tudo (onisciência)
4. Existo para ser adorado.
Não há nada "especial" em ser humano. Acontece
com a maioria de nós. Porém, ser humano implica
em passarmos por rejeições e frustrações, o que
é evitado aos deuses. É muito comum o relato de
pacientes, aos quais (em geral a mãe), prometeu
um amor "especial", em troca de feitos também
"especiais", e assim, condescendendo ao desejo
da mãe de elevar a sexualidade (dela) a nível
espiritual, sacrificam a própria, para então
ganharem um carro aos 14 anos, quando por lei,
não se pode dirigir. Pessoas "especiais" não
seguem leis ou regras feitas para seres comuns.
A filosofia do tratamento na qual acreditamos,
baseia-se na formação de estrutura. Embora
vivamos numa época caracterizada pela
necessidade de superar limites, ao mesmo tempo
desejamos negá-los. Partimos do pressuposto, que
na ausência de estrutura não há significado. Na
observação desses pacientes, percebe-se que
confundem ausência de vínculos com escolha, e
identidade com estilo de vida. Vivem com
pensamento mágico, característico das crianças,
onde tudo ocorre em relação a si mesmo.
Ao negar as necessidades dos outros, negam as
próprias. Ao ter que impressionar e manipular os
outros, negam-se respeito.
Assim, nossa idéia de tratamento é devolver ao
paciente as características que nos são comuns
como seres humanos: Essa possibilidade de cada
indivíduo de superar os próprios limites, e não
negá-los, este pertencer, num mesmo espaço, a
seres tão diferentes entre si.
C - Observação de Comportamento na Instituição
Ausência de interesse quanto a qualquer
atividade que requeira concentração ou um mínimo
de esforço, decisão e/ou escolha.
Tarefas não são completadas. Aparecem reações de
raiva às menores críticas e/ou limitações. Há
tentativas constantes de sedução do corpo médico
e paramédicos (suborno, etc.) no sentido de
conseguir "tratamento especial", recusa de
participar de qualquer terapia de grupo onde
haja limites tais como: horário, não poder sair
no meio do grupo, etc. Quando da participação
(errática), todo o movimento e no sentido de ser
"o mais drogado de todos", descrição de
situações extremamente fantasiosas, nas quais, o
que relatava era sempre "um herói às avessas",
cínico, esperto e que enganava todos os
idiotas".
Tanto homens quanto mulheres, mesmo no hospital,
cuidam muito bem de sua aparência pessoal, até
mesmo com excesso de preocupações para o local.
Diversão em desafiar as regras, principalmente,
as relacionadas com pessoal de cozinha e
limpeza, isto é, com pessoas que eles consideram
sem autoridade. Dificuldade de relacionamentos
afetivos. Situação de "descaso" para com
qualquer pessoa "careta", isto é, qualquer um
que não use drogas. Grande tendência para
colocar os problemas fora de si, nos outros, na
família, na sociedade.
Extrema dificuldade para responder a perguntas
como: "O que você sente? A isso em geral
respondem: "Acho que...", "Penso que...". Isto
é, incapacidade de perceber os próprios
sentimentos.
Negação de sentimentos considerados "baixos" ou
"feios", tais como: Inveja, Ressentimento,
Incapacidade, Impotência. Esse sentimentos são
projetados nos outros. Desafio passivo à
limites, tais como, não participar da terapia,
mas colocar som em grande altura, atrás das
janelas onde está acontecendo a terapia; tecer
considerações pouco lisonjeiras a respeito dos
profissionais quando estes passam por perto,
fazendo de conta que não os vêem.
Nenhum interesse quanto ao próprio tratamento, a
não ser o desejo de sair do hospital e voltar a
ser "livre". Absoluta certeza de poder "parar
com a droga" no momento que quiser, apenas, não
o quer.
Recusa a participar da ginástica, em grupo,
apesar de falar muito sobre suas atividades
físicas. Reclamações constantes quanto a
ausência de atividades.
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