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Drogadependência Drogadependência e Narcisismo

Projeto Phoenix
Dra. Patrizia Donatella Streparava

"Extasiado diante de si mesmo, sem mover-se do lugar... o rosto fixo, absorvido com este espetáculo, ele parece uma estátua de mármore.

Deitado no solo, contemplando dois astros, que são os seus próprios olhos, contempla seus cabelos, sua face, seu pescoço de marfim, sua boca encantadora e a brancura de sua pele. Admira tudo aquilo que suscita sua própria admiração.

Em sua ingenuidade, deseja a si mesmo. A si mesmo dedica seus próprios louvores. Ele mesmo inspira os ardores que sente. Ele é o elemento do fogo que ele próprio acende. E quantas vezes dirigiu beijos vãos à onda enganadora! Quantas vezes, para segurar seu pescoço ali refletido, inutilmente mergulhou os braços no meio das águas.

Não sabe o que esta vendo, mas o que vê extasia-o, e o mesmo erro que lhe engana os olhos acende-lhe a cobiça. Crédula criança, de que servem estes vãos esforços para possuir uma aparência fugidia? O objeto de teu desejo não existe. O objeto de teu amor, vira-te e o farás desaparecer.

Esta sombra que vês, é um reflexo da tua imagem. Não é nada em si mesma; foi contigo que ela apareceu, e persiste, e tua partida a dissipará, se tivesses a coragem de partir."

Metamorfoses (Origem de Narciso)
Ovídio (43 A.C.- 18 D.C.)


Há alguns anos, começamos a notar uma alteração no tipo de pacientes que eram internados em instituições psiquiátricas. Houve uma diminuição das internações devidas aos quadros psiquiátricos clássicos, tais como Esquizofrenias, Psicoses Maníaco Depressivas, etc... e um aumento considerável do ABUSO DE DROGAS.

Ao mesmo tempo, no consultório, aumentou um tipo especifico de paciente, cuja queixa, para busca de terapia, era de "sensação de vazio", "ausência de vínculos afetivos", "sentir-se incompreendido pela maioria das pessoas (as quais em geral eram consideradas inferiores, burras, mal informadas, etc...). Durante a entrevista, surgia a colocação de uso de drogas, em geral cocaína, mas este fato não era relacionado com dependência. Todos eles tinham plena convicção de "estar no controle da situação", podendo parar a qualquer momento. Mesmo no ambiente terapêutico, a necessidade de controle parecia fundamental e absolutamente idêntica em todos os casos.

A diminuição de internações dos casos clássicos, é obviamente explicada pêlos progressos na psicofarmacologia. Um paciente bem medicado pode ter uma vida razoavelmente normal, com seguimento ambulatorial e Psicoterapia, ficando a internação restrita a "um momento psicótico", durante o qual a pessoa pode apresentar perigo para si ou para outros.

Na realidade, vivemos um momento especial do desenvolvimento humano, no qual as ciências neurológicas começam a ser funcionais PARA e COM as pessoas. Podemos melhorar o humor, diminuir a ansiedade, fazer desaparecer alucinações e delírios, isso só para falar no uso de medicação.

Com as terapias, pode-se modificar comportamentos, integrar personalidades, buscar o caminho do auto conhecimento. Enfim, é um momento de abertura de possibilidades infinitas. Ai, apareceram os drogadependentes, e lá se foi toda essa feliz e agradável sensação de conhecimento, possibilidades de cura e onipotência medica.

Conhecíamos o que as drogas fazem no e com o organismo. Eles sabiam muito mas e nem sequer acreditavam que qualquer tipo de lesão pudesse com eles ocorrer. Nós médicos somos "alarmistas", "exagerados", "moralistas".

E afinal de contas, não é o que todo mundo faz?

Começamos a notar que o abuso de drogas relacionava-se, não só com um tipo de estrutura de personalidade, mas também a um caráter social.

O que relatamos a seguir é um trabalho de dois anos com esse tipo de paciente.

A - Alguns relatos de usuários

X - 33 anos, 25 internações (polidependência, preferência por cocaína).

"...eu preciso ficar fora de tudo. Eu sei que preciso. Eu preciso mudar o meu pai, mas eu sei que não adianta.
Tudo, eu já tive. Consigo tudo, e depois, gasto tudo em drogas. É assim, de repente."

Y - 22 anos, 6 internações (polidependência, preferência por cocaína).

"...é isso. Eu quero me drogar. Eu preciso me anestesiar. É esse ódio que vem e que eu preciso anestesiar.
E ninguém entende que é isso que eu quero. É ficar muito loco, por que só assim eu agüento. É por isso que eu vou arrombar a porta do posto de enfermagem e roubar remédio".

Z - 55 anos, 8 internações (álcool).

"...no fim, a gente entende, mas não perdoa. É esse ódio que não é possível. É o pai que deu tudo, mas era um carrasco. Eu consegui superá-lo. Ganhei mais do que ele, mas só bebendo um pouco às vezes passa, mas é só isso, eu não sou alcoólatra, é apenas stress".

W - 15 anos, 3 internações (polidependente).

"...ora, é só para relaxar, me sentir bem. É claro que eu largo qualquer coisa a hora que quiser, mas não quero. Eu não quero ser como todo mundo, eu sou diferente. Esse negócio careta de ter hora para tudo não é comigo.
É nesse grupinho que a gente se entende. Eu sempre morei com a minha avó e agora a minha mãe quer mandar na minha vida. Acho que só meu pai gostava de mim. Eu só percebi isso quando ele morreu. Ele bebia, mas era muito bom".

K - 14 anos, primeira internação (cocaína).

"...e qual é o problema? Me puseram aqui a força, eu não precisava.
Foi só um fim-de-semana, ai eu fui parar na UTI. Eu não sabia como usar. Eu só queria esquecer um tempo. Ninguém se importa. Todo mundo tem a sua própria vida. Por que eu não posso ter a minha do jeito que eu quiser? ".

L - 10 internações (derivados do ópio).

"...eu fiz bastante dinheiro com isso. É fácil vender e dá mais do que qualquer trabalho. Ai, eu também comecei a usar, mas só socialmente, mas agora esta complicando o trabalho, porque acabo gastando mais do que vendo. É por isso que estou aqui ".

Q - 43 anos, 8 internações (polidependência).

"...as pessoas não entendem. Eu não quero uma vida sem sentido, dessas ai que a gente vê. Trabalhar com meu pai e do jeito que ele quer? Eu só mais uma vítima dessa sociedade capitalista. Roubam tudo de mim, e eu não aceito isso. Nem as crianças me deixam ver. Isso é doença? Isso é me obrigar a ser como todo mundo ".

B - Observações Clinicas

Ao observar, falar e estar com pacientes, aproveitamos também para observar que sentimentos e emoções despertavam em nós. Entre os mais constantes, aparecia uma esquisita sensação de irrealidade, como estivéssemos falando com estatuas, e não com pessoas.

A imagem que provocavam era a de Dorian Gray, aquela personagem de Oscar Wilde que não envelhece, é lindo, socialmente encantador, sedutor, enquanto que o quadro que é seu retrato, sofre todas as modificações físicas resultantes, não só da passagem do tempo, mas também das emoções de tristeza, medo, basicamente horror. Quando Dorian Gray olha para seu quadro, ele se mata, ao tentar destruir a pintura, porque não consegue suportar tamanho horror.

Por que o Drogado é Narcisista e o que é Narcisismo.

Tal como o Narcisista, o drogadependentes tem caracteristicamente fantasias de grandiosidade, falta de empatia, incapacidade de aceitar críticas, faz relações espoliativas, (18) tem a sensação de "ser especial", preocupa-se com sucesso e poder de forma excessiva, exige atenção e admiração constantes. É o amor pela IMAGEM de si mesmo, e para isso, usa dos mecanismos de Negação e Projeção.

Embora negue quase todos os sentimentos, os mais negados são: tristeza e medo, pois ambos o faz sentir vulnerável e negado-os, pode projetar uma imagem de independência, coragem e força, o que ilusoriamente faz com que se sinta "no controle da situação". Segundo Lowen (psiquiatra americano, criador de Bioenergética), essa situação se origina num ambiente familiar de crítica velada, onde o "poder é a autoridade suprema e a submissão esconde rebeldia e hostilidade". Todo Narcisista tem profundo medo de humilhação, e a imagem grandiosa encobre um sentimento subjacente de inadequação. Assim o esforço do Narcisista pela aquisição de poder, deriva de um profundo sentimento de humilhação sofrida quando criança".

Nem todo Narcisista é um drogadependente, mas nessa observação, os drogadictos são basicamente narcisistas. Ambos, ao negar sentimentos, projetam imagens para compensar essa perda de sentimento. Atualmente, somos bombardeados diariamente por imagens que nos ensinam: "como ficarmos eternamente jovens, como conquistar de imediato, poder e felicidade, como conquistar pessoas, como, como, como... Não há a mínima preocupação com "para que", posto que a identificação simbólica do poder com a potência sexual sublinha este grande tipo de sedução.

Assim, na relação com o médico ou com o terapeuta, este tipo de narcisista entra em luta pelo poder, e nos casos em que há prosseguimento, há grande choque quando o paciente entra em contato com sua impotência, que em geral deflagra cólera, e é disfarçada pela tendência auto-destrutiva do drogadicto (destruição de si como forma de eliminar o outro, agressor). Assim, eles se identificam quase completamente com o genitor rejeitante, negando, o horror da rejeição e tornando-se "especiais." É por isso também que, na relação terapêutica e/ou numa internação comportam-se de forma rebelde, pois por mais que necessitem de ajuda, não conseguem aceitar sua dependência de outrém, pois isso é assustador. Precisam manter-se no controle que por sua vez se estabelece pela negação dos sentimentos e pela projeção de suas fantasias. Aceitar o narcisista é tirar-lhe o controle, e contra isso, o paciente mobilizará todas suas defesas.

Quem é que não quer a situação de poder? (ser o único que pode satisfazer plenamente a um dos pais)

As qualidades ou desejos especialmente destacados por pacientes drogadictos resumem-se em:

1. Posso fazer qualquer coisa (onipotência)
2. Todos sabem de minha existência (onipresença)
3. Eu sei tudo (onisciência)
4. Existo para ser adorado.

Não há nada "especial" em ser humano. Acontece com a maioria de nós. Porém, ser humano implica em passarmos por rejeições e frustrações, o que é evitado aos deuses. É muito comum o relato de pacientes, aos quais (em geral a mãe), prometeu um amor "especial", em troca de feitos também "especiais", e assim, condescendendo ao desejo da mãe de elevar a sexualidade (dela) a nível espiritual, sacrificam a própria, para então ganharem um carro aos 14 anos, quando por lei, não se pode dirigir. Pessoas "especiais" não seguem leis ou regras feitas para seres comuns.

A filosofia do tratamento na qual acreditamos, baseia-se na formação de estrutura. Embora vivamos numa época caracterizada pela necessidade de superar limites, ao mesmo tempo desejamos negá-los. Partimos do pressuposto, que na ausência de estrutura não há significado. Na observação desses pacientes, percebe-se que confundem ausência de vínculos com escolha, e identidade com estilo de vida. Vivem com pensamento mágico, característico das crianças, onde tudo ocorre em relação a si mesmo.

Ao negar as necessidades dos outros, negam as próprias. Ao ter que impressionar e manipular os outros, negam-se respeito.

Assim, nossa idéia de tratamento é devolver ao paciente as características que nos são comuns como seres humanos: Essa possibilidade de cada indivíduo de superar os próprios limites, e não negá-los, este pertencer, num mesmo espaço, a seres tão diferentes entre si.

C - Observação de Comportamento na Instituição

Ausência de interesse quanto a qualquer atividade que requeira concentração ou um mínimo de esforço, decisão e/ou escolha.

Tarefas não são completadas. Aparecem reações de raiva às menores críticas e/ou limitações. Há tentativas constantes de sedução do corpo médico e paramédicos (suborno, etc.) no sentido de conseguir "tratamento especial", recusa de participar de qualquer terapia de grupo onde haja limites tais como: horário, não poder sair no meio do grupo, etc. Quando da participação (errática), todo o movimento e no sentido de ser "o mais drogado de todos", descrição de situações extremamente fantasiosas, nas quais, o que relatava era sempre "um herói às avessas", cínico, esperto e que enganava todos os idiotas".

Tanto homens quanto mulheres, mesmo no hospital, cuidam muito bem de sua aparência pessoal, até mesmo com excesso de preocupações para o local.

Diversão em desafiar as regras, principalmente, as relacionadas com pessoal de cozinha e limpeza, isto é, com pessoas que eles consideram sem autoridade. Dificuldade de relacionamentos afetivos. Situação de "descaso" para com qualquer pessoa "careta", isto é, qualquer um que não use drogas. Grande tendência para colocar os problemas fora de si, nos outros, na família, na sociedade.

Extrema dificuldade para responder a perguntas como: "O que você sente? A isso em geral respondem: "Acho que...", "Penso que...". Isto é, incapacidade de perceber os próprios sentimentos.

Negação de sentimentos considerados "baixos" ou "feios", tais como: Inveja, Ressentimento, Incapacidade, Impotência. Esse sentimentos são projetados nos outros. Desafio passivo à limites, tais como, não participar da terapia, mas colocar som em grande altura, atrás das janelas onde está acontecendo a terapia; tecer considerações pouco lisonjeiras a respeito dos profissionais quando estes passam por perto, fazendo de conta que não os vêem.

Nenhum interesse quanto ao próprio tratamento, a não ser o desejo de sair do hospital e voltar a ser "livre". Absoluta certeza de poder "parar com a droga" no momento que quiser, apenas, não o quer.

Recusa a participar da ginástica, em grupo, apesar de falar muito sobre suas atividades físicas. Reclamações constantes quanto a ausência de atividades.

  Publicado em: 08/12/1997

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