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Terceira Idade Saúde na terceira idade

Dr. Wilson Jacob Filho

Será possível envelhecer com saúde?

Embora muitos ainda associem o passar do anos ao acúmulo de doenças, entendendo que invariavelmente teremos que conviver com inúmeros problemas de saúde e limitações com o avançar da idade, os atuais conceitos científicos demonstram que o processo natural de envelhecimento não é um fator impeditivo para a maioria das atividades cotidianas de um adulto em qualquer idade, e que as verdadeiras responsáveis pelas deficiências e disfunções atribuídas à velhice são as doenças, que podem ser prevenidas e/ou tratadas eficientemente na maior parte das vezes.

O conhecimento desta realidade pode mudar completamente nossa atitude. Ao invés de nos lamentarmos por estar envelhecendo, de buscarmos obstinadamente as "modernas fontes da juventude" ou de tentarmos disfarçar os efeitos aparentes do passar dos anos, deveríamos estar atentos aos verdadeiros inimigos da saúde em qualquer idade: os fatores determinantes e/ou predisponentes das doenças.

Devemos lembrar, porém, que a ausência de doenças não significa obrigatoriamente a presença de saúde. A Organização Mundial de Saúde (OMS) já há muito tempo definiu saúde como um estado de bem estar biopsíco-social, ou seja, um estado de equilíbrio entre todos os determinantes físicos e emocionais do ser humano.

Sabemos, porém, que inúmeras são as pessoas que, por vários motivos, não se encontram neste estado de bem estar e, por outro lado, não apresentam nenhuma doença classicamente definida que justifique esta condição. Entretanto, são muitos os exemplos de portadores de doenças bem tratadas e bem controladas que apresentam desempenho adequado, independente das enfermidades que possui ou dos tratamentos que realiza.

Este modo atual de entender Saúde nos permite almejar um presente e um futuro de maneira muito mais otimista. Isto, porém, nos confere uma responsabilidade direta. Dificilmente atingiremos este estado de equilíbrio sem nos esforçarmos objetivamente por isto. Muitos são os cuidados a serem tomados e quanto mais precocemente dermos atenção a eles, mais eficiente serão nossas atitudes. Isto que dizer que podemos cuidar do nosso envelhecimento desde as idades mais precoces.

Em verdade, com o avançar da idade nos tornamos mais propensos a desenvolver doenças crônicas. Em parte por alterações orgânicas próprias do envelhecimento mas, principalmente, por hábitos inadequados que, durante toda a vida, prejudicaram nossos determinantes básicos da saúde.

Infelizmente, porém, a maioria das pessoas só se lembra de cuidar das doenças que já produziram sintomas, ou seja, que já estão instaladas e conseqüentemente só poderão, na melhor das hipóteses, ser controladas ou atenuadas. Poucos são aqueles que, na fase adulta, preocupam-se com prevenção, e esta é, sem dúvida, a nossa melhor arma para atingir o envelhecimento saudável. Mesmo aqueles que acreditam na sua importância, muitas vezes utilizam métodos pouco eficientes, onerosos e por vezes enganosos, ao invés das regras básicas de saúde, reconhecidamente efetivas. A seguir forneceremos alguns exemplos fundamentais de atitudes que, em conjunto, são sabidamente responsáveis pela eliminação dos fatores de risco e conseqüentemente prevenção primária ou secundária da saúde com o avançar da idade.

Por uma analogia com os cuidados destinados aos primeiros anos de vida, criamos o termo SENECULTURA, que inclui todas as técnicas diagnósticas e terapêutica, incluindo as educacionais, que visem contribuir direta ou indiretamente para a Promoção de Saúde do Idoso.

Aspectos como nutrição, que no idoso é tão fundamental quanto no jovem, são freqüentemente desvalorizados. Raros são aqueles que reconhecem as necessidades alimentares do organismo em cada idade. A maioria prefere simplesmente eliminar a maioria dos alimentos "nutritivos", trocando-os pelos farináceos, ricos em calorias mas pobres em todos os demais componentes. Chá, bolachas, sopas ralas, macarrão e batatas não podem ser considerados a alimentação básica do idoso. Teremos, em futura apresentação, a oportunidade de detalhar melhor o assunto.

Dentre os hábitos deletérios à saúde, o alcoolismo e o tabagismo são aqueles que, embora freqüentemente utilizados durante toda a idade adulta, vão manifestar suas graves complicações quanto o indivíduo apresenta idade avançada. Estudos atuais demonstram os benefícios decorrentes da interrupção destes hábitos em qualquer idade. Portanto, não há mais dúvida de que é benéfico parar de fumar e/ou de beber mesmo após várias décadas de utilização destes agressores. Isto favorece não apenas a saúde como um todo. Há absoluta necessidade de criarmos novas expectativas para a nossa vida a fim de podermos optar entre aquilo que nos prejudica e o que possa nos fazer bem.

A inatividade ou o sedentarismo se constitui, hoje, em um comportamento praticamente epidêmico. Todos, em qualquer idade, são estimulados cada vez menos ao movimento. Com isso, o tempo de inatividade se responsabiliza pela progressiva disfunção dos idosos, freqüentemente atribuída à própria idade. O desuso pode ser mais deletério que a velhice. Também neste assunto, estaremos dedicando em breve uma matéria especial.

O uso indiscriminado de medicamentos pode ser, e freqüentemente é, um agente prejudicial à nossa saúde. Infelizmente, muitos ainda acreditam em drogas que promovem o rejuvenescimento. Preferem crer a fantasia cômoda dos remédios ao invés da participação ativa no processo de manutenção da saúde. Não apenas se expõem aos eventuais malefícios de medicamentos como também dedicam seu recursos, por vezes escassos, em uma efêmera fantasia. Os prejuízos são portanto, de ordem clínica (pelos efeitos colaterais das drogas), de ordem social (pelos gastos) e de ordem emocional, visto que freqüentemente a decepção pela recuperação prometida e não alcançada deixa um forte sentimento de frustração e de descrédito nos outros e em si mesmo.

Quem souber usar medicamentos, seguindo as orientações médicas, terá maior possibilidade de benefícios e menos chances de efeitos colaterais. Para tal é absolutamente necessário que participemos ativamente no processo terapêutico, por um lado entendendo bem os motivos de uso dos medicamentos e por outro cooperando para que o plano seja executado com precisão, seguindo os horários, doses e duração prescritas.

Outras medidas preventivas, como as vacinas, estão sendo cada vez mais utilizadas na prevenção das doenças infecciosas no adulto. As mais recomendadas são: anti-tetânica, anti-pneumocócica, e anti-gripal. Já estão sendo feitas algumas campanhas em hospitais universitários mas, em breve, teremos aprovado a disponibilidade destas vacinas na rede de saúde. Os projetos que normatizam estes programas de vacinação já se encontram em fase avançada de desenvolvimento. Todos podem ser vacinados mas temos recomendado especialmente àqueles que podem ser mais graves nas infecções respiratórias.

Prevenção de acidentes é uma atitude absolutamente necessária à saúde do idoso. Dentro de casa, iluminar melhor o trajeto, as escadas, colocar corrimão nos pontos de desequilíbrio, retirar ou fixar no piso os tapetes, desimpedir os caminhos. Na rua, como pedestre, observar pontos de travessia, com atenção aos sinais e aos veículos, usar roupas coloridas, calçados estáveis, observando as irregularidades do piso. Usar uma bengala é sinal de prudência, não velhice. Como passageiro, o uso do cinto de segurança é fundamental. Mantenha-se atento ao trajeto, aproveitando para desfrutar o passeio e aumentar o seu conhecimento sobre o local visitado. Como motorista o cuidado é ainda maior, pois várias pessoas podem ser prejudicadas pela nossa imprecisão. Devemos estar aptos a dirigir naquele momento. Uso de álcool, medicamentos, limitações físicas, preocupações e estado emocional abalado podem ser importantes causas de acidentes graves. O motorista deve ser consciente em qualquer idade. Dirigir bem é mais uma demonstração de competência ainda maior.

Estas, entre outras recomendações, demonstram como vem crescendo a atenção de todas as áreas do conhecimento em função de um ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL. Cabe a nós, idosos do presente ou do futuro, acreditar e trabalhar por isso.
  Publicado em: 18.08.1997

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