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Terceira Idade Qual a importância da nutrição na saúde?

Dr. Wilson Jacob Filho

Muita confusão tem sido feita em relação às necessidades nutricionais para a manutenção da saúde, principalmente em algumas situações especiais, como a sobrecarga profissional (trabalho excessivo), de intensa atividade física (atletas em treinamento ou em período de competição) ou simplesmente em determinados período de nossa vida (fase de crescimento, de gestação ou durante o avançar da idade).

Vem daí um conceito fundamental: devemos nos alimentar conforme as necessidades de cada período ou de cada situação. Tudo que for feito neste sentido permitirá que possamos saber o que e quanto é necessário constar do nosso cardápio para que nossa saúde possa ser mantida ou readquirida.

Embora ainda existam desvios alimentares em inúmeras situações, vamos aproveitar esta oportunidade para enfocar principalmente o que muda em nosso organismo com o passar dos anos, justificando as necessidades especiais de alimentação nesta longa e importante fase da vida.

Há quem pense que com o avançar da idade as nossas necessidades alimentares simplesmente diminuem. Isto acaba provocando os freqüentes erros dietéticos observados entre os "mais maduros". Vamos, daqui para frente, tentar desfazer mitos e firmar conceitos sobre a alimentação mais adequada para esta faixa etária.

A capacidade do aparelho digestivo diminui com a idade?

Este é um freqüente erro de interpretação do processo de envelhecimento. Embora muitas mudanças ocorram neste processo, a grande maioria delas não limita as principais funções do nosso organismo.

Se conseguirmos evitar o aparecimento de doenças importantes ou se cuidarmos delas com eficiência, provavelmente teremos um organismo saudável em qualquer idade, o que inclui um aparelho digestivo com plena capacidade de trabalho. Isto significa dizer que este conjunto de órgãos pode e deve ser bem cuidado para poder exercer plenamente suas funções durante a vida toda.

Algumas regiões do aparelho digestivo costumam ser especialmente maltratadas. É o caso da boca e em especial os dentes. Poucos se lembram, na juventude, de quanto os dentes são importantes na boa alimentação. Todos os esforços para preservá-los serão extremamente influentes no nosso futuro. Para quem não sabia disto e já não tem mais dentes, resta o importante recurso de manter as dentaduras bem adaptadas. Sem uma boa mastigação não há uma boa alimentação.

Outro órgão freqüentemente agredido pelos maus tratos é o estômago. Bebidas, fumo e medicamentos em excesso são as causas mais comuns de gastrites ou mesmo de úlceras. O constante estado de "stress" emocional e os longos períodos de jejum também são muito prejudiciais à saúde do estômago. Com o avançar da idade, estes fatores vão se tornando cada vez mais importantes e conseqüentemente nosso cuidados serão cada vez mais necessários.

Não podemos nos esquecer do intestino nesta apresentação. São tantas as queixas relacionadas ao seu mal funcionamento que muitos acreditam que isto é próprio do envelhecimento. Total engano. Quem cultivar bons hábitos alimentares e intestinais, "educando" seu aparelho digestivo a funcionar regularmente, terá este conforto durante, provavelmente, a vida toda. Para isso é necessário uma certa regularidade alimentar (tipo de alimentos, quantidade e horários) e um respeito ao hábito intestinal, permitindo que haja a evacuação quando for necessário e não apenas quando nos for socialmente possível.

Para quem não sabia que a saúde do aparelho digestivo poderia ser preservada com a nossa total participação, estes foram alguns importantes exemplos. Com estes cuidados, não apenas estaremos mantendo a saúde destes órgãos mas também a dos outros que funcionam conjuntamente (fígado, vesícula, pâncreas, etc.) e conseqüentemente do organismo como um todo.

A alimentação só é importante na fase de desenvolvimento?

Total engano. Na fase inicial de nossa vida temos necessidade maior de alimentos que são responsáveis pela "construção" do nosso organismo. Com o avançar da idade, porém, necessitamos manter o que foi construído, repondo as perdas naturais ou as decorrentes de processos agressores de nossa saúde (infecções, fraturas, etc.). Fica claro, portanto, que embora em diferentes fases da vida, a alimentação continua sendo muito importante para a preservação da saúde.

Cabe aqui lembrar que praticamente todas as funções do nosso organismo dependem de alimentos. Seja como combustível, para fornecer energia, seja como aditivos para promover o bom funcionamento dos processos metabólicos, todos estes elementos devem vir, direta ou indigenamente da alimentação.

Bons exemplos destes tipos de alimentos são:

Os carboidratos (hidratos de carbono), principais responsáveis pelos nossos suprimentos de energia. Os melhores exemplos são as massas e doces, ricos em amido e açúcares, cuja facilidade de digestão permitem que possamos adquirir grande quantidade de calorias em curto espaço de tempo. Por um lado, isto é muito interessante para quem está em pleno desempenho físico. Pode, porém, ser prejudicial para quem não utiliza todo o equivalente energético, pois o excedente será transformado em depósito, o que significa acúmulo de gordura. Temos, portanto, que equilibrar nossa ingestão de carboidratos com os nossos gastos, quando queremos manter nosso peso estável. Se, por outro lado, nos for recomendado uma redução do peso, podemos tanto restringir a quantidade de calorias como aumentar o consumo, sendo que ambas atitudes são benéficas, desde que devidamente orientadas. Calcula-se que metade da dieta de um dia deva-se constituir de hidratos de carbono.

As proteínas são o melhor exemplo de matéria prima para a constituição das nossas estruturas. Praticamente todos os nossos tecidos dependem da existência de uma adequada matriz protéica. Mesmo no sangue, temos uma grande quantidade de proteínas circulantes que são fundamentais a inúmeras funções. Os anticorpos, por exemplo, que nos defendem dos agentes agressivos, são proteínas especificamente fabricadas para cada tipo de atuação. Para manter sua produção adequada, necessitamos ingerir estas substâncias cotidianamente, em especial aquelas conhecidas como "de alto valor biológico". Suas melhores fontes são os produtos de origem animal (carnes, ovos, leite) e devem se responsabilizar por pelo menos um terço da nossa dieta diária.

As gorduras exercem funções muito mais importantes do que pensamos. Todas as membranas do nosso corpo são compostas de derivados de gordura. Mesmo aquela depositada na pele tem a importante função de proteger-nos contra a perda de calor. Não pode, porém, ser excessiva. Com o envelhecimento, já ocorre naturalmente um aumento do tecido gorduroso. Se contribuirmos para que este acúmulo seja exagerado, certamente teremos todos os prejuízos da obesidade que, além da questão estética, também é muito importante em todas as doenças do aparelho circulatório e das articulações. Quem carrega excesso de peso, submete seu organismo a um desgaste desnecessário. Devemos preferir as gorduras de origem vegetal e evitar as derivadas da carne, nata ou gema, em uma proporção em torno de 20% do total da dieta.

As vitaminas, tão valorizadas popularmente, não fazem nada sozinhas. São fundamentais nos processos metabólicos e promovem inúmeras reações essenciais ao nosso organismo. Frutas e verduras frescas são suas principais fontes e, desde que ingeridas rotineiramente, são suficientes para suprir as nossas necessidades. Complexos de vitaminas devem ser reservados para situações muito especiais.

Cada vez posso comer menor variedade de alimentos?

Por tudo que foi demonstrado até agora, não há motivo para reduzirmos a variedade da nossa alimentação. Primeiro porque continuamos necessitando de todas as substâncias que foram importantes em outras idades, com pequenas diferenças quantitativas e segundo porque temos plena capacidade de digerí-las e aproveitá-las desde que tenhamos o aparelho digestivo bem conservado. Portanto, se podemos e precisamos, porque não nos alimentamos bem?

Um outro aspecto muito importante é a sensação de liberdade que experimentamos quando "podemos comer de tudo". Sempre que possível, devemos cultivá-la. Mesmo que hajam algumas restrições (sal ou doces, por exemplo) lembrar que existem centenas de opções interessantes que podem transformar nossa refeição em um importante momento de prazer.

A alimentação é apenas uma necessidade?

Além de todas as funções nutricionais do corpo, a alimentação também pode ser um bom momento para "nutrir o espírito", fazendo da refeição um momento de interação social. Muito do interesse pela alimentação depende mais desta possibilidade de convívio, que para ser incrementada deve prestigiar as necessidades afetivas de cada um. Podemos valorizar tanto aquele que prepara o alimento como aqueles que deve se servem, de modo que todos acabem sendo reconhecidos pela sua importância.

Todo idoso perde o apetite?

Não necessariamente. Sabemos que há uma redução do paladar e do olfato com o avançar da idade mas isto pode ser compensado com temperos mais aromáticos ou que acentuem sabores. Por outro lado, a apresentação visual dos pratos pode favorecer o interesse em melhor se alimentar. Muitas são as possíveis estratégias capazes de incrementar o interesse pela alimentação.

Posso substituir a alimentação por remédios?

Depois de todas estas explicações, fica claro que uma alimentação adequada é uma das melhores formas de manter ou recuperar a saúde. Podemos, aliás, devemos, encontrar uma composição de alimentos que seja ao mesmo tempo agradável, nutritiva, variada e prazerosa. Nenhum medicamento, por mais sofisticado que seja, pode preencher estas necessidades. Vamos valorizar a alimentação como uma estratégia de promoção da saúde em qualquer idade e reservamos aos medicamentos o papel exclusivo do tratamento de doenças.
  Publicado em: 17.09.1997

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