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ULTRASSONOGRAFIA
MAMÁRIA
A ecografia
mamária é capaz de detectar tumores mamários
sólidos a partir de 5 mm de diâmetro e císticos
a partir de 2 mm.
Entretanto, com a utilização dos sinais
indiretos que serão comentados posteriormente,
esse limite pode ser reduzido até o diagnóstico
de câncer mínimo ou "in situ" em até 21% dos
casos, o que torna este método superior a
qualquer outro método de imagem para diagnóstico
de patologia mamária em uso no momento.
Entretanto, para se atingir essa acuidade
diagnóstica o ultrassom de mama requer um
equipamento especial de alta resolução, de
preferência associado a Doppler colorido, assim
como médico especializado na execução e
interpretação das imagens. É essa grande
dependência do operador e do equipamento que tem
impedido a divulgação ampla do método e sua
substituição à mamografia.
O passado tem nos ensinado que sempre quando o
ultrassonografia se eqüivale ou supera outro
método de imagem para diagnóstico, o clínico
sempre apta pela ultrassonografia por ser um
método mais bem aceito pelo paciente, menos
invasivo, sem efeito biológico, menos oneroso e
mais disponível.
Quando iniciamos a ultrassonografia mamária em
1978, a mamografia era nitidamente superior ao
ultrassom no diagnóstico das patologias
mamárias. Entretanto, a melhora dos equipamentos
de ultrassonografia foi muito rápida, tendo
havido incorporação de novas tecnologias com um
ritmo surpreendente, quando comparado a outros
métodos de imagens e, por fim, a partir de 1985
constatamos que a ultrassonografia havia
superado a mamografia na capacidade de
diagnóstico da patologia mamária, na nossa
casuística.
Uma prova indireta desse fato é o que em nosso
serviço os clínicos têm optado progressivamente
pela ultrassonografia mamária, relegando a um
plano cada vez mais secundário a mamografia.
Os dados que vamos apresentar a seguir tentam
provar este tese.
INDICAÇÕES DO US DE MAMA
Podemos dividir as indicações do US de mama em
dois grupos:
I. Indicações de consenso, ou seja, que são
aceitas pela maioria dos serviços:
- Diagnosticar massa palpável, quando a mamografia for inconclusiva ou negativa.
- Diferenciar entre massa cística ou sólida.
- Como método complementar á mamografia em
mamas densas (displásicas, com próteses, jovens
ou gestantes).
- Como exame inicial em gestantes.
- Como exame complementar quando a mamografia
for inconclusiva ou duvidosa.
- Para definir conduta, quando há nódulo
palpável não visto na mamografia, quando se
detecta microcalcificações esparsas no
parênquima e se deseja saber se há massa tumoral
associada, quando a mamografia detecta massa não
palpável para confirmá-la e diminuir dos
falsos-positivos da mamografia.
- Pesquisa de ectasia ductal, especialmente das
pacientes com descarga papilar, pode ser o
método mais eficaz e menos traumático do que a
ductografia.
- Direcionamento de biópsia para lesões
visualizáveis ecograficamente, mesmo que não
sejam palpáveis.
II. Indicações polêmicas do US de mama, ou seja,
seu uso está restrito no momento a alguns
serviços, entre os quais o nosso, mais
acreditamos que será aceito em breve por todos
os principais centros que estudam seriamente a patolgia mamária:
- Diagnóstico inicial de massa palpável, pois o
método é mais elucidativo quanto a natureza da
lesão e, se é palpável, certamente é visível com
a ultrassonografia.
- Exame inicial em todas as mamas densas (displásicas,
com próteses, jovens, previamente submetidas a
radioterapia e gestantes), pois nesses casos os
falsos negativos da mamografia são muitos
elevados e geralmente requerem a complementação
ultrassonográfica. Então, porque não iniciar com
exame mais efetivo?
- "Screening" periódicos em pacientes
assintomáticas: esta indicação é a mais polêmica
de todas, mas a justificamos com os nossos
resultados de apenas 1.8 % de falsos-negativos
em 8 anos de uso sistemático do Us de alta
resolução como "Screening". Indicamos um exame
anual em mulheres da população geral e a cada 6
meses em pacientes de alto risco.
A ultrassonografia jamais deverá ser realizada
como uma nodulografia ou como simples
complemento da mamografia, mas sim deverá ser
utilizada como exame de rastreamento completo de
ambas as mamas e axilas para obter seu potencial
máximo de diagnóstico.
METODOLOGIA DO EXAME PADRONIZADO NA SONIMAGE
1º A mama é sempre examinada com equipamento
"real-time" de alta resolução com transdutor
linear de 7.5 Mhz.
2º A paciente é colocada em decúbito esquerdo
com o direito, sempre oposto ao lado da mama que
se examina, utilizando-se para isso um coxim
sobescapular, estando a mão da paciente apoiada
sobre a cintura.
3º A mama é examinada fazendo-se uma analogia
com um relógio, onde o mamilo seria o centro e o
transdutor os ponteiros do mesmo. Sempre
iniciamos o exame pela mama patológica, caso
houver nódulo, dor ou outro sintoma qualquer .
Em pacientes assintomáticas a mama direita é
sempre a primeira a ser examinada. Iniciamos o
exame ao nível da 1 hora da mama e nessa posição
o mamilo estará situado à esquerda na tela;
prosseguimos o exame na seqüência das horas
fotografando duas imagens por hora, mantendo-se
o transdutor sempre posicionado paralelo ao
lobo, o qual deverá ser completamente examinado,
desde o mamilo até o seu esvaecimento na
periferia da mama.
4º Durante o exame deve-se manter uma compressão
moderada dos tecidos mamários com o transdutor,
o que auxilia a diferenciação entre nódulos
verdadeiros e adiposos.
5º A partir das 7 horas e até as 12 horas, o
transdutor é rodado em 180 graus, de tal forma
que o mamilo passe a se posicionar a direita da
tela.
6º Ao concluir esta parte do exame, o transdutor
é rodado em 90 graus para examinar o lobo
mamário transversalmente, fazendo-se uma
varredura contínua do mamilo a periferia da
mama, examinando-se por completo os lobos
mamários.
7º A seguir, colocamos uma esponja acústica
sobre os nódulos sólidos que a mama
eventualmente contenha para avaliar-se a
espessamento ou retração da pele e também sobre
o mamilo por se tratar de uma estrutura mais
proeminente, cujo contato direto com o
transdutor de superfície plana não é tão
efetivo, o que dificulta o diagnóstico de
patologias mamilares e retro- mamilares, caso se
utilize esse expediente.
8º Ao final, examinamos ambas as axilas, visando
detectar gânglios linfáticos aumentados e
ectopia mamária.
9º Complementamos o exame da outra mama com a
mesma metodologia descrita até agora. Se durante
o exame mamário for identificada alguma massa
cística ou sólida, determinamos a sua distância
do mamilo, discriminando a hora em que se
encontra e medimos a massa nos seus três maiores
eixos. A tumoração é analisada quanto aos seus
contornos, sua textura, sua compressibilidade e,
quando sólida, pesquisamos os sinais diretos e
indiretos que diferenciam a massa benigna da
maligna.
Quando houver uma massa sólida ou uma área mal
delimitada de alteração da arquitetura mamária,
também os analisamos qualitativamente e
quantitativamente com o Doppler colorido,
mensurado a fluxometria dos vasos internos ou
circunjacentes à lesão suspeita. Esta
metodologia do relógio tem uma série de
vantagens:
1º O lobo mamário é examinado desde o início até
o final e qualquer alteração morfológica será
facilmente identificado, tais como: disroptura
da arquitetura tecidual, remoção cirúrgica
gerando descontinuidade do tecido fibroglandular,
presença de massa no seu interior.
2º Os ductos mamários tem trajeto paralelo ao
maior eixo do lobo, sendo mais facilmente
identificáveis por este método especialmente
quando dilatados. Torna-se possível a
identificação de vegetações intraductais, o que
quase é impraticável com outra metodologia.
3º Facilita a diferenciação entre nódulos
verdadeiros e nódulos de tecido adiposo: os
nódulos adiposos estão situados na periferia dos
lobos e em quantinuidade com a camada adiposa do
subcutêneo ou interlobular, enquanto que os
nódulos verdadeiros (especialmente os malignos)
costumam-se situar-se no interior do tecido
fibroglandular.
4º Identifica-se melhor a área de hiperdensidade
retroareolar ou periareolar.
5º É um método essencialmente anatômico que
permite ser realizado concomitantemente ao exame
físico, correlacionando-se as margens
ultrassonográficas com as nodulações palpáveis,
a medida em que se realiza o exame. Pode se
interpretar para o médico ou para o paciente que
tipo de estrutura ou tecido foi palpável, o que
permite em muitos casos tranquilar e evitar uma
cirurgia desnecessária; quando a dúvida persiste
nossa conduta é indicar a punção biópsia com
agulha fina direcionada para a área suspeita.
6º O médico ultrassonografista se sente mais
seguro na interpretação das imagens
ultrassonográficas.
7º A redução do tempo necessário para a
realização do exame, pois o examinador concentra
sua atenção sobre os lobos mamários onde mais de
90% das patologias mamárias estão situadas e
dispensa uma importância apenas relativa ao
tecido adiposo. Isso praticamente significa
dizer que não há diferença para o
ultrassonografista entre mamas volumosas ou não,
pois, independente do seu tamanho, a quantidade
de tecido fibroglandular é mais ou menos similar
e é neste que concentra sua atenção.
8º É uma metodologia que aumenta o senso de
posição e por isso permite comparações de exames
seqüenciais quando necessita-se de uma análise
evolutiva a curada, o que os outros métodos de
exames ultrassonográficos já descritos não
permitem. Com isso anula-se uma das maiores
críticas ao ultrassom mamário: a de não ser
capaz de analisar os exames evolutivos, pois não
teria certeza de poder localizar a lesão de que
deveria comparar.
9º O clínico examina o paciente também
utilizando a analogia do relógio e por isso o
ultrassonografista falam a mesma linguagem
quando examinam a mama. Essa é uma grande
vantagem do ultrassom sobre a mamografia, que
distorce todos os planos anatômicos e não
conseguem interpretar o exame físico.
10º Permite insistir na área patológica,
aumentando a acuidade diagnóstica do exame.
11º Auxilia grandemente na interpretação da
mamografia, evitando freqüentemente a realização
de cirurgia desnecessária.
BIÓPSIA COM AGULHA FINA DIRIGIDA COM ULTRASSOM
A ultrassonografia é o método ideal para
direcionar a biópsia com agulha fina até atingir
a tumefação, certificando-se que amostras
realmente conclusivas sejam coletadas da região
suspeita e não do parênquima normal
circunjacente à lesão. Não raramente temos
observado que as lesões mamárias pequenas e que
deveriam ter sido removidas em biópsia a céu
aberto foram deixadas intocadas quando o
paciente retornos para o exame evolutivo de
controle.
As vantagens da ultrassonografia da biópsia
mamária sobre a técnica estereotáxica, realizada
concomitantemente com a mamografia, são
bastantes significastes: capacidade de realizar
biópsia em lesões situadas na periferia da mama
ou auxila; a aproximação mais direta da lesão
selecionando-se previamente o caminho mais
curto; rapidez e utilização do mesmo equipamento
de alta resolução para o diagnóstico (não há
necessidade de se investir num equipamento
especial para a biópsia).
Para o diagnóstico precoce do câncer de mama é
indispensável que o ecografista utilize o
transdutor de alta resolução, tenha treinamento
ecográfico específico na área, utilize uma
metodologia reproduzível para análise evolutiva
(mesmo que o segmento seja realizado por outro
examinador) e que examine completamente a mama.
III- DIAGNÓSTICO ECOGRÁFICO DO CÂNCER DE MAMA
A incidência de câncer de mama vem aumentando
progressivamente nas últimas décadas. De 1982 a
1987 aumentou 32%, passando a 10%, ou seja, uma
em cada dez mulheres teriam câncer de mama
durante sua vida. Nos últimas três anos essa
incidência aumentou ainda mais, passando a ser
de um câncer para ca da oito mulheres (12,5%). A
causa exata do porquê o câncer de mama vem
aumentando significantemente nos últimos anos
ainda é desconhecido.
Foram levantadas várias hipóteses para explicar
este fenômeno:
- Diagnóstico mais precoce;
- Modificação do estilo de vida das mulheres;
- Tabagismo em ascensão;
- Aumento do consumo de bebidas alcoólicas;
- Pesticidas, ondas eletromagnéticas;
- Dieta gordurosa (o ideal seria apenas o
consumo de 20% de calorias provenientes das
gorduras);
- Maior exposição da mulher aos estrógenos, o
que inclui o uso do contraceptivo oral, ingestão
inadvertida de estrógenos aplicado na carne do
gado ou frango, aplicação de cremes de beleza
que contenham estrógenos, tratamento de
infertilidade e terapia de reposição da
menopausa. As análises mais recentemente
realizadas (11) sugerem que o estrógeno é
realmente o principal responsável pelo aumento
da incidência do câncer de mama. Inclusive
alguns inseticidas como o BHC, tem causado
aumento da incidência de câncer de mama em
decorrência a sua habilidade de ligar-se aos
receptores do estrógeno, gerando efeito
estrogêncio indesejado (12) .
A incidência das décadas anteriores a 1980 era
de um caso de câncer mamário para cada 14
mulheres, passando a um para cada 8 mulheres em
1993. As mulheres, após a menopausa, que não
fazem uso de hormonoterapia de resposição tem
aumento anual da incidência do câncer de mama de
2,1%, quando fazem uso de estrógeno conjugado o
aumento é de 3,9% e quando usam o estrógeno
convencional o aumento é 4,2% (11, 13).
Alguns trabalhos recentes tem sugerido que a
Associação do Estrógeno com progesterona pode
elevar o risco de câncer de mama (14).
Devido o câncer de mama ser hoje a principal
neoplasia que afeta as mulheres, é cada vez mais
importante diagnosticá-lo precocemente. O
ultrassom tem a capacidade de poder diferenciar
os nódulos benignos dos malignos e para isso
utilizamos os seguintes critérios:
1) Critérios ultrassonográficos para o
diagnóstico de nódulos sólidos benignos:
- Massas de limites regulares e bem definidos.
- Textura homogênea, pouco densa, permitindo
boa transmissão do som e ausência de microcalcificações internas.
- Sinal Doppler negativo.
- Preservação da arquitetura mamária nas circunjascências da lesão.
2) Critérios ultrassonográficos para o
diagnóstico de lesões malignas ao ultrassom.
Esses critérios se subdividem em sinais diretos
e indiretos.
Sinais diretos:
- A presença de massa hipoecogênica em relação
ao tecido fibroglandular normal (Fig. 2).
- As margens são total ou parcialmente bem
definidas, irregulares, especuladas, ou
nobuladas (Fig. 2).
- Presença de uma coroa ecogênica que circula a
lesão e que corresponde morfologicamente a
reação desmoplástica tentando bloquear a
disseminação do tumor (Fig. 2).
- Presença de sombra acústica irregular.
- Presença de ectasia ductal na
circunjascências da massa tumoral (Fig. 3).
- A textura interna é heterogênea devido a
presença de microcalcificações esparsas no
interior da nodulação.
- A massa não é comprimível.
- O sinal Doppler é positivo em 85% das
tumorações com essas características (Fig. 4).
O sinal Doppler para diagnóstico das neoplasias
malignas da mama está baseado no padrão habitual
de vascularização tumoral:
1. Há aumento da vascularização para propiciar o
crescimento da neoplasia Os vasos sangüíneos
apresentam trajeto irregular, distribuem-se
aleatoriamente dentro da massa e o calibre dos
mesmos não diminuem perifericamente.
2. Formam-se "shunts" artério-venosos entre os
vasos neoformados que irrigam o tumor.
3. Os vasos tumoraes não têm a camada muscular,
sendo suas paredes formadas só de íntima e
adventícia. Em conjunto essas alterações
vasculares propiciam acentuada redução de
resistência diastólica ao fluxo.
Quando analisamos o Doppler do tumor, nós
avaliamos os seguintes parâmetros:
a) A localização dos vasos: se é apenas
periférico (padrão "benigno") ou se também
atinge a região central da tumoração,
distribuindo-se aleatoriamente e intercalando
áreas de maior vascularização com outras
hipovascularizadas (padrão "maligno").
b) A velocidade sistólica máxima: se elevada
(acima de 15 cm/seg) é indicativa de processo
maligno e se baixa (menor do que 15 cm/seg) é
indicativa de processo benigno.
c) Os índices de resistividade e de
pulsatilidade: quando diminuídos geralmente são
indicativos de baixa resistência diastólica ao
fluxo. Esses índices costumam funcionar muito
bem no diagnóstico diferencial de massas
tumorais dos ovários e do útero. Entretanto, na
nossa experiência pessoal esses índices têm se
relevado praticamente de nenhum valor no
diagnóstico do câncer de mama.
d) A presença (sinal benigno) ou a ausência
(sinal maligno) da incisura diastólica. Sua
principal utilidade tem sido diferenciar as
elevações da velocidade sangüínea provenientes
de processo sistêmico (hipertensão arterial)
daquelas decorrentes de patologia mamária
própria. Na nossa experiência pessoal os sinais
obtidos com o Doppler colorido mais úteis na
separação das massas benignas e malignas da mama
são:
1. Quantidade, padrão de localização e
distribuição dos vasos tumorais. Quanto maior a
quantidade desses vasos, mais suspeito se torna
o processo. Quando a massa tem poucos vasos
internos, mas calibrosos e distribuídos
irregularmente, também se torna mais suspeita.
2. Velocidade sistólica máxima elevada
A conduta que conseguimos em nosso serviço é a
seguinte: uma vez realizado o ultrassom de
rastreamento completo de ambas as mamas e
detectada uma massa sólida, realizamos a análise
Doppler-fluxométrica a cores daquela região e a
comparamos com a análise similar obtida no
quadrante correspondente da outra mama. Caso
houver diferença significante entre ambos,
indicativa de processo maligno pelos critérios
previamente analisados ou quando os resultados
são limítrofes, indicamos uma punção com agulha
fina dirigida com a ecografia para a área
suspeita, a fim de obtermos esclarecimento
definitivo da natureza citopatológica da lesão.
Os nossos falsos-negativos (aproximadamente 15%)
praticamente estão todos concentrados em casos
onde o crescimento tumoral é mais lento como
ocorre em pacientes idosas em geral (Fig. 5), ou
em algumas variantes neoplásticas de baixa
malignidade, como é o caso da Doença de Paget.
Em pacientes idosas consideramos extremamente
suspeita a detecção de qualquer quantidade de
vasos no interior de uma massa sólida, mesmo que
a velocidade sangüínea não atinja 15 cm/seg.
Os falsos-positivos na nossa casuística são
decorrentes principalmente das mastites focais
(Fig. 6), algumas clinicamente assintomáticas e
de algumas formas de displasia, especialmente
com hiperplasia intra-ductal, papilomatose
ductal, ou adenose. Ainda não temos explicação
para o sinal Doppler esporadicamente ser
positivo em algumas pacientes sem nenhuma massa
tumoral ou alteração morfológica visibilizável
na mama. Esses caos estão sendo estudados
prospectivamente para verificarmos se surgirá
algum processo neoplástico no futuro. Caso isto
ocorra, a análise Doppler positiva seria o
primeiro sinal indicativo de uma neoplasia ainda
muito incipiente.
Os sinais indiretos de malignidade são:
- Espessamento da pele adjacente a tumoração.
- Retração da pele adjacente a massa.
- Perda ou mudança da textura da camada adiposa
do subcutâneo ou retro-mamário.
- Espessamento dos ligamentos de Cooper
adjacentes a massa tumoral.
- Alteração focal da textura e da arquitetura
mamária.
Essa alteração pode abranger apenas um segmento
de lobo, o lobo mamário completo, ou mesmo todo
um quadrante da mama. Caracteristicamente essas
áreas são difusamente hipoecogênicas, de limites
mal definidos e não são comprimíveis. Seus
limites muito indefinidos não possibilitam
caracteriza-las como "massa". Na nossa
casuística 15% das áreas de alteração de
arquitetura e textura mamária têm se revelado
neoplasias primárias muito iniciais (Fig. 7) ou
multifocais e 6% foram consideradas lesões
"borderline" no anátomo-patologico (2 casos de
hiperplasias ductal atípica e 1 caso de
negativação de biópsia maligna após uso de
tamoxifeno).
Também temos constatado uma maior incidência de
áreas de alteração da arquitetura e textura em
pacientes de alto risco, tais como aquelas com
historia familiar de câncer mamário, aquelas que
já tiveram ou estão com câncer mamário (nestes
casos a área de textura alterada se manifesta em
outro local na mesma mama não afetada pelo
câncer), e mamas displásicas de idosas em uso de
hormonoterapia. Temos observado também que é
possível haver regressão da alteraçaão de
textura e da arquitetura quando a paciente faz
uso de tamoxifeno. Todos esses dados são
indicativos de que essa alteração apesar de ser
um sinal indireto de malignidade deve servir de
alerta para exame mais minucioso da mama,
indicando se retornos mais freqüentes, ou mesmo
a biópsia.
Sempre que detectamos uma área de alteração
focal da textura e arquitetura, realizamos o
Doppler da região e quando a área se evidencia hipervascularizada, com velocidade sangüínea
elevada (acima de 15 cm/s), é uma conduta
indicar a cirurgia ou a punção com agulha fina
direcionada com o ultrassom. Os nossos
resultados estão discriminados nas tabelas
1,2,3,4,5,6 e 7 em anexo.
Os nossos resultados são superiores ao
"Screening" de câncer de mama realizado com a
mamografia convencional, cuja sensibilidade é de
91,1%, a especialidade é de 89% e o valor
preditivo positivo é de apenas 25,5%. O motivo
do valor preditivo positivo da mamografia ser
tão baixo é a altíssima incidência de
falsos-positivos decorrentes de
microcalcificações. Quando as microcalcificações
são muito sugestivas e associadas a uma massa
com outros sinais indicativos de malignidade ou
falsos-positivos são de apenas 18,1%.
Entretanto, se investigado qualquer tipo de
microcalcificação, independente de ser ou não
muito suspeita, o índice de falsos-positivos
eleva-se para 90,4%. O principal problema da
mamografia são os falsos-negativos que são em
média de 9,7%, sendo que, para mamas muito mais
densas, atinge 78,9% em mamas moderadamente
densas de 21,1%. O Instituto Nacional de Câncer
dos EUA reviu os resultados da mamografia
utilizada com "screening" provenientes de vários
países e constatou falsos-negativos de ordem de
40% em mulheres com idade inferior a 50 anos,
pois até a menopausa as mamas são muito densas.
Esses resultados ruins da mamografia poderão
estender-se até a sexta década, caso persista
tendência atual de hormonoterapia após a
menopausa, que acarreta aumento do tecido
fibroglandular e consequentemente aumenta a
densidade do parênquima. Quando comparamos os
resultados do ultrassom com os da mamografia,
constatamos que:
a) Os falsos-negativos da mamografia em mamas
densas superam os falsos-negativos do ultrassom
em mamas hipodensas.
b) O falso-negativo do ultrassom é menos grave
do que os da mamografia, pois ele incide
exatamente na mama hipodensa idosa, onde a
expectativa da vida é menor, o tumor cresce mais
lentamente, a angiogênese é mais lenta e as
metástases são mais tardias, propiciando ser
detectada ainda a tempo, quando atingem 5 mm de
diâmetro, através dos exames de rastreamento
periódicos recomendados. Além disso, os saltos
tecnológicos da ultrassonografia são bem mais
freqüentes e maiores dos que os da mamografia,
devido ausência de efeitos biológicos torná-la
um método extremamente atraente para
investimentos financeiros das pesquisas
destinadas a desenvolvê-la. A cada dois anos,
temos constatado melhoria apreciável da
resolução dos equipamentos ultrassonográficos, o
que tem reduzido progressivamente os
falsos-negativos em mamas hipodensas.
c) O falso-negativo da mamografia é mais grave,
pois ele incide diretamente na mama hiperdensa
da jovem (menos que 50 anos), que corresponde a
22% dos casos de câncer, mas cuja expectativa de
vida é maior.
Nesta faixa etária o crescimento do tumor é mais
rápido, e seu comportamento biológico é mais
agressivo, sendo a cirurgia conservadora
extremamente importante para preservar a
estética e a função sexual da mulher.
É fácil entender porque o impacto social dos
falsos-negativos é maior nesse grupo.
Entretanto, para que a cirurgia conservadora
seja realizada, seria necessário o diagnóstico
precoce, o que freqüentemente não é propiciado
pela mamografia. As pacientes jovens são
exatamente aquelas que mais se beneficiariam do
diagnóstico precoce. Como a palpação clínica
supera a mamografia entre as mulheres com menos
de 50 anos e como um falso-negativo da
mamografia retardaria o diagnóstico clínico
devido a grande peso que a tecnologia exerce em
nossos dias, é preferível nesse grupo realizar a
palpação clínica para rastreamento do câncer de
mama caso não seja disponível o ultrassom de
mama confiável (equipamento adequado e operador
confiável). Além do mais, a mamografia é uma
técnica que utiliza radiação ionizante
potencialmente mutagênica, com efeitos
biológicos indiscutíveis, e se iniciada aos 35
anos a mulher terá se submetido a pelo mesmo 32
mamografias aos 70 anos, caso realizado
bi-anualamente até 0s 40 anos e anualmente após
esta idade, o que não é desprezível quando se
sabe que a radiação tem efeito cumulativo.
Vários estudos têm demonstrado que o risco de
câncer de mama decorrente da irradiação está
intimamente relacionado à idade da mulher na
época da exposição, sendo o risco mais elevado o
das mulheres mais jovens (15,16,17,18,19), e se
manifestará com intensidade máxima 15 a 20 anos
após a exposição à radiação, declinado a seguir.
Portanto, quanto mais jovem for a mulher, mais
indicado estará o ultrassom para exame das
mamas, tanto para evitar os efeitos biológicos
potenciais mais intensos da radiação ionizante,
quanto por ser este indivíduo o que pior se
presta ao exame mamográfico devido à grande
densidade do parênquina mamário próprio dessa
faixa etária. Há uma crença generalizada de que
a ultrassonografia só consegue visualizar massas
palpáveis nas mamas, que provém da época em que
se utilizavam equipamentos com resolução muito
inferior aos atuais, o que não tem mais
fundamento. Vários estudos têm surgido
ultimamente demonstrando o valor da
ultrassonografia em detectar lesões
não-palpáveis das mamas (Fig. 8). Um estudos
retrospectivo realizado na Itália com 11.254
pacientes, nas quais se realizava a mamografia e
a ultrassonografia de alta resolução, constatou
que o ultrassom detectou 47 dos 57 carcinomas
não-palpáveis e mais importante, todavia, foi
que a sonografia identificou dos dez carcinomas
(18%) não visualizados pela mamografia (20).
Outro estudo demonstrou que a ultrassonografia
detectou uma lesão focal diminuta em todas as
pacientes com câncer mamário, confirmados
cirurgicamente mas com mamografia negativa (21).
Naturalmente que sempre que a lesão estiver
situada na periferia da mama ela será facilmente
perdida pela mamografia, mesmo que ela seja
hipodensa e teoricamente "ideal" para este
método de imagem. Também as próteses mamárias
bloqueiam totalmente a identificação de lesões
tumorais quando examinadas com a mamografia, não
interferindo com a ultrassonografia (Fig.9).
As principais vantagens do ultrassom de mama
(tabela 1) são:
- Capacidade de diagnosticar tanto as
neoplasias quanto as doenças benignas nas mamas
densas, sendo o diagnóstico de neoplasia nesses
casos mais precoce do que o do raio X.
- Detectar nódulos marginais, pois propicia o
exame completo de toda a mama.
- Diferenciar entre os nódulos verdadeiros dos
falsos (espessamento fibroglandular, nódulos de
gordura endurecidos, área residual de parênquima
mamária normal em mama adiposa), evitando
cirurgias desnecessárias, pois é um método que
propicia melhor identificação da textura
tecidual, permitindo diagnóstico mais preciso da
patologia mamária.
- Direcionar a punção biópsia.
- Diagnóstico mais preciso da natureza da
lesão: discrimina bem os nódulos sólidos dos
císticos e, quando sólidos, podem determinar se
o padrão é de lesão benigna ou maligna e
examinar se o padrão de vascularização com a Doppler-fluxometria colorida.
- Permite boa localização pre-cirúrgica da
lesão.
- É muito bem aceito pela paciente, pois é indolar e realizado pelo próprio médico.
- Os falsos-positivos em nossa casuística
correspondem a apenas 9,6% dos falsos.
- Não tem efeitos biológicos.
- É o método ideal no presente para seguimento
de pacientes submetidas ao tratamento
conservador do câncer de mama. Após quadrantectomia e radioterapia a mamografia têm
se revelado muito limitada na detecção da
recorrência tumoral em decorrência das
alterações pós-cirurgicas e/ou actínicas da
mama. O Ultrassom tem sensibilidade de 86% para
detecção da recidiva tumoral (22) e é
particularmente útil em pacientes que se
submeteram à reconstrução cirúrgica da mama com
implante de silicone (23).
- Detecção de metástases ganglionares. O
Ultrassom pode detectar metástases em gânglios
de 5 a 7 mm de diâmetro que geralmente se
manifestam como área única de textura totalmente
hipoecogênicas ou como manchas hipoecogênicas
dispersas em gânglios com substituição adiposa
parcial, os quais têm textura hiperecogênica
(Fig. 10). Nem sempre é possível distinguir os
aumentos inflamatórios benignos dos malignos,
mas sempre que houver dúvidas poder-se-á optar
por punção biópsia direcionada com a ecografia.
A sensibilidade do ultrassom em detectar
metástases de câncer de mama em gânglios
linfáticos situa-se entre 60 e 73%, sendo muito
superior ao exame físico e à mamografia axiliar
(25,26,27,28), podendo também avaliar as áreas
infra e supra-clavicular, assim como a cadeia da
mamária interna, o que é útil para estadiamento
(29,30).
As principais desvantagens do ultrassom (tabela
1) são:
- É operador-dependente.
- Pode não diagnosticar lesão sólida inferior a
5 mm de diâmetro.
- Não detecta microcalcificações do parênquima.
- Exige equipamento especial de alta resolução,
de preferência acoplado a Doppler colorido,
sendo este equipamento bem mais caro do que um
mamógrafo tradicional.
- Ausência de uma imagem global das mamas, o
que eventualmente poderá ser superado pelos
novos equipamentos tridimensionais que estão
sendo aguardados.
- Dificuldade de se interpretar estudos feitos
em outros serviços, pois nem todos adotam a
"técnica do relógio e também não documentam
extensamente todas as posições examinadas (em
nosso serviço um exame de mama completo inclui
um mínimo de 60 fotos, podendo atingir 130 fotos
em casos complexos com múltiplas massas
requerendo estudo complementar com Doppler
colorido). A documentação extensa do exame de
mama assegura ao clínico (e à paciente) que o ultrassonografista de fato realizou rastreamento
completo das mamas.
Uma limitação freqüentemente lembrada é a
incapacidade do ultrassom detectar
microcalcificações tissulares e, baseando-se
nessa premissão, alega-se que o ultrassom não
tem capacidade de detectar tumor mínimo. Na
verdade, o ultrassom não detecta
microcalcificações tissulares, mas ele pode
detectar tumor mínimo com até 21% de verdadeiro
positivo na nossa casuística (incluindo os casos
"borderline"), mas utilizando-se de outro sinal
já descrito: a alteração focal da arquitetura e
textura do parênquima. Não podemos nos esquecer
que o ultrassom e a mamografia são métodos que
se utilizam de princípios físicos totalmente
distintos e os sinais que são válidos para um
não o são para o outro. Poderíamos da mesma
forma alegar que a mamografia não consegue
detectar as áreas focais de alteração da
arquitetura e textura que o ultrassom detecata e
que podem anteceder em até dois anos e oito
meses o surgimento da neoplasia macroscópica,
como já tivemos a oportunidade de constatar em
uma das nossas pacientes.
O fato de requerer um operador experiente e um
equipamento especial torna este método ainda não
disponível na maioria dos centros de diagnóstico
da atualidade.
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