home aviso  
artigos eventos noticias links profissionais    
 

Sexo Sexualidade

Alexandre Saadeh

Você, que está lendo esta página agora, tem a mesma curiosidade ancestral de nossos antepassados a respeito do tema.

As Sexualidades - no plural, pelos motivos que a seguir abordarei - têm uma base e um desenvolvimento biológicos, que quando completos geram uma gama de comportamentos e atitudes, que necessitam um "controle" social, ao qual damos o nome de cultura.

As diversas formas de expressão cultural das sexualidades determinam crenças, valores e reações em relação as mesmas.

A própria Medicina já foi, e ainda é influenciada por fatores culturais, na forma como ela lida com assuntos ligados à sexualidade.

No tocante ao tema, podemos iniciar uma conversa com os seguintes tópicos: desenvolvimento biológico; identidade sexual x orientação sexual; fases do desempenho sexual e sexo "normal" x fantasias sexuais x transtornos da sexualidade.

1. Desenvolvimento biológico:

Após a fecundação, quando um espermatozóide encontra um óvulo, inicia-se o processo de desenvolvimento embrionário geral e também o ligado ao sexo.

Nesta etapa, estabelece-se o assim chamado sexo cromossômico, onde o óvulo contribui com um cromossomo X, e o espermatozóide com um cromossomo, ou X, ou Y.

Se a união for de um cromossomo X, com outro X, o desenvolvimento sexual se dá no sentido de formar um embrião com características compatíveis com o sexo anatômico feminino. Se for de um cromossomo X, com um Y, a possibilidade é a de se formar um embrião com características sexuais anatômicas masculinas.

Por que este tom de dúvida no parágrafo anterior?

Simples, a definição cromossômica sexual, é necessária, mas não é a única responsável pela definição anatômica do sexo.

Para o pleno desenvolvimento do sexo pré-programado genética e cromossômicamente, interagem fatores que podemos chamar de hormonais, para a definição completa do aparelho sexual anatômico em feminino ou masculino.

Com isto, teremos então, a definição de sexo gonadal, ou seja, não basta ter cromossomos XX, ou XY para a definição anatômica do sexo; também se faz necessária uma definição hormonal, que é dependente da liberação de fatores humorais liberados no processo de diferenciação embrionária, para a condução de uma definição anatômica masculina ou feminina.

2. Identidade sexual x Orientação sexual:

Nascida, ou mesmo antes de nascer, surge a expectativa dos pais em relação ao sexo da criança.

Atualmente, com os avanços da ultrassonografia, os pais têm a possibilidade de saber o sexo anatômico da criança meses antes do nascimento. Assim, fica mais fácil decidir se o garoto vai torcer para o time de futebol do pai, do avô paterno, ou materno, ou se a menina vai ter uma boneca ou um ursinho na porta do quarto da maternidade.

Esta expectativa não é nem boa, nem má, simplesmente define social e culturalmente um papel para o recém nascido.

Assim, esta criança, com o aparato anatômico sexual definido - e também o aparato jurídico, pois quando nascemos, somos registrados com um nome e um sexo que nos define para o resto da vida; algo assim como uma "patente" que nos é impingida - começamos a nos relacionar com o mundo que nos cerca, adotando, sendo incentivados a adotar, ou simplesmente sendo obrigados a adotar padrões de comportamento cultural e socialmente definidos como masculinos ou femininos, e portanto passamos a nos identificar com eles, criando o que chamamos de identidade sexual, que nada mais é do que a capacidade que temos de nos definirmos como masculinos ou femininos, já que nos reconhecemos como homens ou mulheres. Este processo inicia-se na infância e prolonga-se até o final da adolescência.

Com as mudanças comportamentais ocorridas, em nosso meio cultural, nas últimas décadas, determinados padrões tornaram-se mais sutis, mas mesmo assim continuam rígidos, principalmente se comparados com outros grupos humanos, onde a presença de um terceiro sexo, ou sexo indefinido é considerada.

Portanto, é possível pessoas pertencentes a um determinado sexo anatômico, considerarem-se psicologicamente de outro sexo. Exemplo: um indivíduo considerado anatomicamente do sexo masculino (possuidor de pênis, testículos, vesícula seminal, etc..., e com funcionamento normal), criado como homem, sentir-se e querer ser uma mulher. Estes indivíduos, chamados de transexuais, não obtêm prazer sexual com os órgãos anatômicos do sexo correspondente - o homem transexual não vê no pênis um órgão sexual, nem tem prazer com ele: encara o pênis como um apêndice inútil; o mesmo se dá com a mulher transexual em relação a vagina. Estes são considerados casos de transtornos de identidade sexual.

Definido o grupo sexual ao qual pertencemos e nos identificamos, resta-nos definir o objeto ao qual dirigiremos nossos impulsos sexuais.

O mais comum é dirigirmos nossos desejos sexuais para pessoas de um sexo anatômico diferente do nosso.

Isto é o mais comum, mas não significa ser a única possibilidade.

Desta forma é possível termos todas as combinações possíveis de escolha: homem e mulher; homem e homem; mulher e mulher. A esta possibilidade de escolha de um ou uma parceira, damos o nome de orientação sexual, que pode ser: heterossexual, homossexual ou bissexual. A assexual não conta, pois não se caracteriza como uma orientação.

Como vocês devem ter percebido, usei o termo orientação, e não opção. Este segundo termo é errôneo e não deve ser utilizado, pois caracteriza uma definição consciente da escolha do parceiro sexual, e não é assim que as coisas se dão. A orientação sexual envolve mecanismos ainda não esclarecidos - biológicos, psicológicos ou sócio-culturais - mas não é um mecanismo dependente única e exclusivamente da vontade.

3. Fases do desempenho sexual:

Definidas nossas identidades e orientações sexuais, só nos resta desempenhar a sexualidade.

Para Freud, a nossa sexualidade desenvolve-se desde a infância, apresentando um período de latência, e com o advento da puberdade, e portanto das transformações físicas decorrentes, temos um novo fluxo de energia sexual.

Após a puberdade e com o amadurecimento do aparelho reprodutor - nome isento de erotismo, para os órgãos sexuais - somos capazes de exercer uma sexualidade adulta.

Nos seres humanos a sexualidade tem caráter reprodutivo e recreativo (eufemismo para descaracterizar a noção de prazer envolvendo a sexualidade), apesar de algumas religiões se mostrarem abertamente contra qualquer outra possibilidade que não a reprodutiva para a sexualidade.

Desta forma, pensando em duas pessoas maduras biologicamente para o exercício da sexualidade, teremos o seguinte ciclo de resposta sexual:

bullet fase de desejo sexual
bullet fase de excitação sexual
bullet orgasmo
bullet fase de resolução

Estas fases caracterizam todo o ato sexual. Resumidamente, podemos caracterizá-las como Masters e Johnsons e depois deles outros autores descreveram.

A fase de desejo sexual corresponde ao início de qualquer atividade sexual, o interesse, ou vontade. É quando vamos a procura, por termos interesse ou desejo sexual.

Já a fase de excitação corresponde ao início da atividade sexual propriamente dita, ou seja, quando se iniciam respostas fisiológicas do organismo - por exemplo: ereção no homem, e lubrificação vaginal na mulher - dando possibilidades aos dois para que o ato sexual continue.

Nesta fase a excitação aumenta progressivamente - podendo ou não se dar a penetração - até um clímax, ponto de não controle e não retorno, chamado orgasmo - que no homem geralmente é associado à emissão de esperma, ou ejaculação -, que se caracteriza por um prazer intenso.

O orgasmo feminino envolve fatores não só fisiológicos, mas também psicológicos. O orgasmo clitoriano é o mais comum e envolve uma estimulação por fricção e contato com o clitóris. Já o orgasmo vaginal é muito menos freqüente e geralmente exige envolvimento físico da mulher com seu parceiro, além da mesma estar tranqüila em relação a sua sexualidade.

Antigamente pensava-se que o orgasmo vaginal era o desejado, e que mulheres que só tivessem orgasmo clitoriano eram imaturas sexualmente. Atualmente se a mulher só consegue ter orgasmo clitoriano, mas de boa qualidade, isto é mais do que normal.

O famoso ponto G, que poucos conhecem, ou já sentiram, seria uma região da parede anterior da vagina altamente sensível ao estímulo sexual e capaz de produzir um orgasmo extremamente potente.

Outra dúvida freqüente é sobre a ejaculação feminina, que não deve ser confundida com um excesso de lubrificação, e que ocorreria durante o orgasmo. Algumas mulheres seriam capazes, na verdade, de, na hora do orgasmo, produzirem uma secreção abundante, que também não deve ser confundida com liberação de urina.

A fase de resolução é aquela na qual, após o orgasmo há um relaxamento muscular, acompanhado de sono, e onde a respiração e a freqüência cardíaca, que haviam se elevado durante o orgasmo, voltam para um nível de repouso, e onde há um período refratário para novas práticas sexuais.

4. Questões acerca da sexualidade normal, fantasias sexuais e transtornos da sexualidade:

A sexualidade normal é aquela na qual um indivíduo não apresenta problemas no seu ciclo de resposta sexual, tem prazer, consegue dar prazer e ter intimidade com seu parceiro.

Faz parte da sexualidade normal determinados comportamentos considerados patológicos no passado, ou aqueles muitas vezes não compatíveis com determinadas posturas religiosas. Por exemplo: a masturbação, hoje em dia considerada como uma forma segura de relação sexual.

Outros fenômenos podem se incluir na assim chamada sexualidade normal:

Fantasias sexuais: longe de serem consideradas patológicas, podem fazer parte de uma fase de excitação. As fantasias podem ser de caráter "voyeur", sádico, masoquista, ou outros. Cabe diferenciar fantasia de um tipo específico de patologia sexual, chamada parafilia que é quando um indivíduo só consegue ter prazer sexual, durante um período de tempo prolongado, utilizando um recurso pouco usual que lhe cause sofrimento psíquico, ou que inflija sofrimento a outra pessoa. Como exemplos: sadismo, masoquismo, "voyeurismo", pedofilia, fetichismo e outros.

Sexo grupal: uma modalidade pouco ortodoxa, mas que de comum acordo entre as partes, nada tem de anormal.

Homossexualidade: hoje em dia descaracterizada como patologia, a homossexualidade só pode ser considerada doentia quando o homossexual apresentar sofrimento psíquico por esta condição.

Sexo oral: muito praticado, só que deve ser considerado uma forma de risco de se contrair doenças sexualmente transmissíveis, inclusive a AIDS. Deve-se usar camisinha sempre durante sexo oral.

Sexo anal: por séculos considerado pecado, ou heresia, é comum tanto entre heterossexuais, como entre homossexuais. É considerado de altíssimo risco para contrair AIDS. Deve-se utilizar sempre preservativo.

Todavia, alguns tipos de problemas sexuais são freqüentes e considerados como patológicos:

A disfunção erétil (dificuldade em ter ou manter a ereção), a ejaculação precoce (quando o homem "goza", ou antes de penetrar, ou logo após), anorgasmia ou disfunção orgásmica (quando a mulher ou o homem não conseguem ter nenhum tipo de orgasmo), falta de desejo sexual, ou mesmo aversão sexual.

Alguns destes transtornos podem ter origem orgânica, ou psicológica, ou ambas. Os tratamentos propostos variam desde medicações, psicoterapia, aconselhamento,ou exercícios.

Se você ou alguém que você conhece está buscando tratamento, procure o Pro-Sex, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
  Publicado em 25.07.1997

| voltar |

 
   Saúde Total © 1997~2006. Todos os direitos reservados.