ATIVIDADE FÍSICA E ENVELHECIMENTO
Dr. José Maria Santarem
Doutor em Medicina, Fisiatra e Reumatologista.
Coordenador do CECAFI - Centro de Estudos em Ciências da Atividade
Física, da Disciplina de Geriatria da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo.
Contato: Rua Teodoro Sampaio 417, 1°
andar, sala 12, Cerqueira César -
CEP 05450-000 - São Paulo, SP.
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Atividade física
pode ser conceituada como contração muscular, independente de suas
características e finalidades. A atividade física geralmente leva ao
movimento, mas nem sempre: contração muscular isométrica é atividade
física e não produz movimento articular. Exercício é uma atividade
física mais estruturada, com objetivos a serem atingidos e técnicas
específicas de realização. A atividade física é atualmente
reconhecida como um importante fator promotor de saúde em todas as
idades 19. Estudos epidemiológicos evidenciaram que as populações
fisicamente ativas têm menor incidência de muitas doenças crônicas,
entre elas a hipertensão arterial, obesidade, diabetes do tipo II,
dislipidemia, osteoporose, sarcopenia, ansiedade e depressão 18.
Conseqüentemente diminui a ocorrência de aterosclerose e suas
consequências: doença coronariana, doença cérebro-vascular e doença
vascular periférica. Quando as pessoas já apresentam essas doenças,
como é o caso de muitos idosos, a atividade física pode ser um
importante recurso auxiliar para o tratamento, reduzindo a
necessidade ou as doses de fármacos em geral. A atividade física
também tende a manter níveis adequados de aptidão física durante o
envelhecimento, reduzindo o risco de quedas e permitindo a
realização confortável e segura dos esforços da vida diária 15,16.
As pessoas adequadamente ativas apresentam menor risco de
confinamento no leito devido à fraturas ósseas ou incapacidade
física, apresentando menor taxa de mortalidade por infecções
pulmonares e tromboembolismo.
De maneira geral, a atividade física tem efeitos fisiológicos
contrários aos do sedentarismo. A composição corporal tende a piorar
no sedentarismo devido ao aumento do tecido adiposo e redução da
massa óssea e da massa muscular. Todas as qualidades de aptidão
física apresentam redução em seus níveis nas pessoas sedentárias,
podendo dificultar a vida diária e reduzir o bem estar psicológico e
social. O fato de que os efeitos do sedentarismo são lentamente
instalados, explica porque pessoas jovens sedentárias não costumam
ter consciência dos seus malefícios. Por outro lado, as pessoas
idosas sentem os efeitos do sedentarismo nas limitações que
encontram para a vida diária, e nas doenças crônicas manifestas.
Os efeitos salutares e terapêuticos da atividade física ocorrem
devido a alguns mecanismos conhecidos e devido a outros ainda mal
compreendidos 7,15. Entre eles estão a redução da pressão arterial
de repouso principalmente devida à diminuição da sensibilidade
adrenérgica dos vasos, o aumento da sensibilidade das células à
insulina, a redução da gordura corporal devida ao maior gasto
calórico e tendência à elevação da taxa metabólica basal, o aumento
do HDL-colesterol, redução dos triglicerídeos, estímulo de fatores
endoteliais de vasodilatação, redução da agregação plaquetária,
estímulo à fibrinolise, estímulo ao metabolismo dos carboidratos,
estímulo hormonal anabolizante, modulação imunológica, estímulo
trófico músculo-esquelético, melhora da estabilidade articular
dinâmica e analgesia neuro-endócrina.
SAÚDE CARDIOVASCULAR
A atividade física
tem sido identificada como o mais importante fator ambiental
favorável à saúde cardiovascular 30. Aspecto relevante é que a menor
incidência de doenças sistêmicas crônicas que evoluem para a
aterosclerose parece ser efeito comum de qualquer tipo de atividade
física. A característica em comum de todos os tipos de atividade
física é o gasto calórico. Assim sendo, são esperados efeitos
salutares advindos do trabalho braçal, das diversas modalidades
esportivas, do lazer com atividades físicas e dos programas
sistematizados de condicionamento físico. Nas atividades físicas de
baixa intensidade (pequeno gasto energético na unidade de tempo), o
gasto calórico total é um parâmetro que parece manter
proporcionalidade com a redução na incidência de doenças sistêmicas
crônicas. Quanto mais calorias forem gastas em atividade física
habitual maiores serão os benefícios para a saúde, mas as maiores
diferenças na incidência de doenças ocorrem entre os sedentários e
os pouco ativos. Entre estes e as pessoas mais ativas, a diferença
não é grande.
Os chamados
exercícios aeróbios, que são atividades contínuas e suaves, são
populares e adequados para promoção de saúde cardiovascular. Como
qualquer tipo de atividade física esses exercícios são eficientes
para essa finalidade e são relativamente seguros mesmo para pessoas
que já apresentam comorbidades ou baixos níveis de aptidão física.
No entanto, exercícios aeróbios não são os mais eficientes para
promover saúde cardiovascular 25 e também não são os mais seguros,
tanto do ponto de vista cardiocirculatório 12,15 quanto do ponto de
vista musculoesquelético 15. Trabalhos recentes têm documentado que
atividades físicas mais intensas são mais eficientes em promover
efeitos protetores cardiovasculares. Recente estudo 25 de coorte com
44.452 homens acompanhados por 12 anos, verificou que uma hora de
corrida por semana reduziu o risco de doença arterial coronariana em
42%; uma hora de remo por semana, em 18%; e apenas meia hora por
semana de musculação (treinamento resistido, geralmente realizado
com pesos), em 23%. Atualmente já encontramos revisões sobre
trabalhos que documentaram importantes efeitos protetores
cardiovasculares do treinamento resistido 7. Aspecto que pode gerar
alguma confusão de conceitos é que toda atividade física é promotora
de saúde cardiovascular por diminuir a incidência ou ajudar a
controlar doenças crônicas que evoluem para a degeneração vascular,
mas apenas exercícios contínuos, aeróbios ou não, conseguem
desenvolver de forma acentuada a chamada “aptidão cardiovascular”.
Esta pode ser conceituada como a capacidade do coração e dos
músculos esqueléticos suportarem aumento de função por tempo
relativamente prolongado. Todavia, atletas de musculação apresentam
aumento significante de alguns parâmetros hemodinâmicos e de função
ventricular esquerda 1,4,13,22,29. Por outro lado, exercícios
contínuos intensos como correr ou remar, e atividades intervaladas
como a musculação intensa, não são adequadas para pessoas com
doenças crônicas instaladas ou com baixos níveis de aptidão física.
Exercícios aeróbios, musculação suave 14,26 ou outras atividades não
intensas são as mais adequadas para pessoas debilitadas.
Pessoas idosas no entanto, com freqüência têm dificuldades para
realizar exercícios aeróbios mesmo que suaves como caminhar. Dores
articulares, vertigens, falta de equilíbrio e dispnéia podem ser os
fatores limitantes nesses casos, não raros na população idosa. Para
essa população, os exercícios resistidos estão sendo considerados os
mais adequados não apenas pela possibilidade de realização, mas
também pelos seus importantes efeitos, incluindo a promoção de saúde
cardiovascular 9,11,14,18,24.
SAÚDE MÚSCULO-ESQUELÉTICA
Entendemos por
saúde musculoesquelética a ausência de dores e uma boa capacidade
funcional do ponto de vista biomecânico. Embora na dependência da
individualidade biológica, o envelhecimento potencializado pelo
sedentarismo tende a produzir processos degenerativos em
cartilagens, ligamentos, tendões e músculos, além de reduzir a massa
óssea. A atividade física em geral apresenta efeitos que se
contrapõem aos anteriormente citados, mas os exercícios mais
eficientes nesses aspectos são os exercícios resistidos 15. Sendo os
aspectos neuromusculoesqueléticos de grande relevância para o bem
estar das pessoas idosas, compreende-se a atual ênfase que se dá aos
exercícios resistidos para essa população.
O estímulo da atividade física para aumento da massa óssea de deve
às compressões dos ossos, e a efeitos hormonais ainda não bem
esclarecidos. A compressão óssea pode ocorrer pelo suporte de pesos,
como o peso do corpo ou de equipamentos, ou pelo impacto, que é a
desaceleração brusca do corpo em movimento. Os exercícios com pesos
são mais eficientes para estimular a massa óssea do que os
exercícios com impacto. Aspecto relevante é que nos exercícios
resistidos a compressão óssea ocorre sem impacto, portanto sem um
importante fator de lesão nas atividades físicas. Essas qualidades
dos exercícios resistidos têm sido consideradas em propostas
terapêuticas e profiláticas para a osteoporose 15,18.
As cartilagens articulares, discos intervertebrais, ligamentos e
tendões são estruturas cuja integridade é importante para a boa
função musculosesquelética, e que é melhor estimulada pelos
exercícios resistidos 14,15.
Todas as pessoas perdem massa muscular e força após a maturidade. A
perda de massa muscular ocorre basicamente devido a processo
degenerativo do sistema nervoso, que leva ao desaparecimento de
motoneurônios no corno anterior da medula espinal. Dessa maneira,
algumas fibras brancas entram em processo de atrofia. Com muita
freqüência, associa-se a esse processo involutivo a hipotrofia de
desuso, que não acomete apenas as pessoas sedentárias. As atividades
físicas que não impõem aos músculos esqueléticos situações de tensão
mais elevada, como por exemplo as atividades aeróbias, não impedem a
hipotrofia de desuso no envelhecimento. Idosos que envelheceram
praticando corrida e natação apresentaram parâmetros de saúde e
aptidão superiores aos que envelheceram sedentários, mas a massa
muscular decaiu nos mesmos níveis. No entanto, idosos treinados com
pesos preservaram massa muscular 20. A diminuição da velocidade dos
movimentos apresenta paralelismo com a redução de massa muscular e
da força: idosos treinados em musculação preservaram também a
velocidade dos movimentos 20. Sem estímulos adequados, são
observadas importantes reduções de massa muscular durante o
envelhecimento 2,15,17,20.
Gordura corporal em quantidades reduzidas é necessária não apenas
para promoção de saúde cardiovascular mas também para não levar à
sobrecargas excessivas no aparelho locomotor. Todos os tipos de
atividade física contribuem para a redução do tecido adiposo.
Condição indispensável para que ocorra mobilização da gordura
corporal é o balanço calórico negativo, cujo principal mecanismo é a
redução da ingestão alimentar. Sendo o tecido adiposo a principal
forma de reserva de energia do organismo, compreende-se que quando
faltam calorias na alimentação para suprir a demanda energética,
ocorre mobilização de gordura corporal. A contribuição dos
exercícios físicos em geral para o processo de emagrecimento decorre
do aumento no gasto calórico diário. No caso dos exercícios
resistidos, ocorre também o estímulo para aumento da taxa metabólica
basal devido ao aumento da massa muscular. Acredita-se que a
tendência das pessoas engordarem com a idade seja em grande parte
devido à redução da taxa metabólica basal decorrente de perda
progressiva de massa muscular. O fato de que a mobilização de
gordura ocorre apenas pela via energética aeróbia, levou à
conclusões precipitadas no sentido de que apenas os exercícios
aeróbios estimulariam o emagrecimento. Na realidade, os exercícios
não aeróbios levam à mobilização de gordura no período de repouso,
que é uma situação de metabolismo aeróbio. Numerosos estudos
documentam redução do tecido adiposo estimulada pelos exercícios
resistidos, que a longo prazo podem ser mais importantes do que os
exercícios aeróbios em função do aumento da massa magra 7,15.
APTIDÃO FÍSICA
As qualidades de
aptidão como coordenação, velocidade, força, flexibilidade,
potência, resistência e os parâmetros de condição aeróbia, são
estimuladas de forma diferente pelas diversas formas de atividade
física. Assim sendo, para alguns objetivos específicos, alguns tipos
de atividade física poderão ser mais eficientes. O aprimoramento das
qualidades de aptidão física tem evidente importância quando existe
o objetivo de realizar grandes esforços, como no caso da prática
esportiva. No entanto, os esforços da vida diária exigem aptidão em
níveis adequados para que as atividades sejam possíveis e não
representem fatores de desconforto ou risco de lesões
músculo-esqueléticas e acidentes cardiovasculares 23.
O sedentarismo ou a
hipocinesia induzida por doenças levam a uma redução gradativa e às
vezes acentuada das qualidades de aptidão física, podendo
comprometer seriamente a capacidade de realizar atividades diárias,
dificultando a locomoção, aumentando os riscos de quedas e criando
situações de risco cardiovascular nos esforços habituais 17. As
qualidades de aptidão física que mais comprometem a qualidade de
vida, quando reduzidas, são força e flexibilidade.
A importância da força muscular na qualidade de vida é grande e
envolve mecanismos fisiológicos apenas há pouco tempo compreendidos.
Do ponto de vista biomecânico, a força muscular é fundamental para a
realização dos movimentos. Tomando como exemplo a ação de
levantar-se de uma cadeira, sabe-se que uma pessoa idosa pode
apresentar extrema dificuldade ou mesmo ser incapaz de realizar a
atividade. A realização dos movimentos necessários para a vida
diária depende de graus relativamente elevados de força muscular, o
que não é percebido pelas pessoas mais jovens porque a força
necessária está disponível. Particularmente o trabalho braçal,
profissional ou doméstico, é muito dependente da força e da
resistência dos músculos esqueléticos. Os exercícios mais utilizados
para aumento da força dos músculos também são os mais eficientes
para promover a chamada “RML” (Resistência Muscular Localizada),
permitindo prolongar as atividades intensas.
A capacidade de manter o equilíbrio do corpo é importante para
diminuir o risco de quedas 15,17. A redução da força muscular parece
ser o principal responsável pelo aumento da incidência de quedas em
pessoas idosas, tendo importância secundária a redução dos reflexos
posturais. Mesmo com reflexos presentes, a queda pode ser inevitável
se os efetores finais que são os músculos esqueléticos estiverem
fracos. A capacidade de locomoção pode ser seriamente afetada pela
redução da força muscular. Para a que a marcha seja possível,
confortável e segura, a força é a aptidão mais importante 2. A
capacidade de manutenção da postura, do equilíbrio e de aceleração
para os passos dependem diretamente da força muscular. Resistência
para caminhar significa poder prolongar a marcha confortavelmente.
Esta condição depende da capacidade aeróbia, medida pelo limiar
anaeróbio e muito estimulada pelo aumento da força muscular 2. O
limiar anaeróbio é a intensidade de esforço acima da qual a produção
energética não pode ser mantida apenas pela via metabólica aeróbia.
Sempre que as fibras musculares individualmente apresentam discretos
graus de força, a tensão necessária para o movimento é conseguida
com o recrutamento de maior número de fibras. Pessoas fortes
caminham com ativação de poucas unidades motoras, enquanto que
pessoas fracas utilizam muitas fibras para a marcha. Quando mais do
que 30 a 40% das fibras musculares são ativadas a produção
energética não pode ser realizada exclusivamente pela via metabólica
aeróbia porque a contração das fibras leva à oclusão parcial de
vasos intramusculares e assim algumas fibras não recebem sangue e
oxigênio. Muitos idosos debilitados caminham anaerobiamente, com
desconforto por acidose metabólica e conseqüente fadiga precoce. O
quadro clínico é o de claudicação intermitente, com o repouso
permitindo continuar a marcha por mais algum tempo. Pessoas
debilitadas tem limiar anaeróbio baixo porque pequenas intensidades
de esforço já solicitam mais de 40% das fibras musculares. O aumento
da força muscular aumenta o limiar anaeróbio, o que melhora a
resistência para esforços de baixa intensidade, como caminhar 2.
Aspecto ainda pouco divulgado é que a força muscular também é
importante para diminuir o risco de acidentes cardiovasculares nos
esforços da vida diária. Isto ocorre porque as pessoas mais fortes
realizam as atividades com menor número de fibras musculares,
comparativamente com pessoas mais debilitadas. A utilização de menor
número de unidades motoras ativa menos os ergoceptores musculares,
que são terminações nervosas livres dispersas entre as fibras. A
ativação dos ergoceptores desencadeia por mecanismos reflexos o
aumento da freqüência cardíaca e da pressão arterial, além do
aumento da freqüência respiratória. Assim sendo, pessoas mais fortes
realizam tarefas com menores alterações hemodinâmicas do que pessoas
debilitadas, apresentando nos esforços menores valores de
duplo-produto (Freqüência Cardíaca x Pressão Arterial Sistólica).
Portanto, as pessoas com músculos mais fortes realizam esforços com
menores riscos cardiovasculares e com maior conforto respiratório
1,10. Esta é a base da aplicação crescente dos exercícios resistidos
em pacientes coronarianos e com insuficiência cardíaca 5,12.
A redução da flexibilidade pode dificultar a realização de
movimentos ou até mesmo impedi-los. No entanto, mesmo na presença de
processos degenerativos ou inflamatórios crônicos das articulações,
é possível promover ganhos de flexibilidade. Aspecto relevante é que
os exercícios resistidos, tão eficientes para aumentar a força
muscular, também promovem ganhos de amplitude articular, até os
limites permitidos pelas alterações patológicas 3.
O VO2 máximo é um parâmetro metabólico de aptidão, necessário para
prolongar atividades com produção energética relativamente elevada,
como é o caso de correr, pedalar ou nadar. Esse parâmetro é uma
variável diretamente associada com níveis de saúde, mas a relação
não é de causa e efeito. As pessoas com níveis elevados de atividade
física do tipo contínua costumam apresentar bons indicadores de
saúde e VO2 máximo elevado. Pessoas com outros tipos de atividade
física podem ter os mesmos estímulos salutares, mas com menores
níveis de VO2 máximo. No caso das pessoas idosas com limitações
patológicas ou de aptidão que impedem exercícios contínuos, não deve
haver preocupação com os níveis de VO2 máximo, desde que outras
atividades físicas estejam sendo realizadas 1. Exercícios resistidos
conseguem elevar o VO2 máximo de forma discreta em jovens, mas em
idosos aumentos de até 23% já foram documentados 27. Além do VO2
máximo, outros parâmetros de aptidão cardiovascular são estimulados
pelos exercícios resistidos 1,4,13,22,29.
SEGURANÇA DOS EXERCÍCIOS FÍSICOS
A segurança de
qualquer atividade física é dada pela adequação correta das
sobrecargas às condições físicas dos praticantes 14,26. Exercícios
intensos, com grande produção energética na unidade de tempo têm
geralmente sobrecargas elevadas. Nas atividades menos intensas as
sobrecargas são menores e portanto exercícios suaves são mais
adequadas às pessoas debilitadas. As sobrecargas musculoesqueléticas
são as compressões, trações, torções, impactos, e repetições. As
sobrecargas cardiovasculares são o aumento da freqüência cardíaca e
da pressão arterial. Considerando as atividades esportivas mais
comuns, os jogos com bola e as lutas em geral são as modalidades com
maiores sobrecargas musculoesqueléticas. Os exercícios contínuos
intensos como correr, pedalar e nadar são as atividades com maiores
sobrecargas cardiovasculares. A musculação intensa tem sobrecargas
consideráveis, tanto musculoesqueléticas quanto cardiovasculares,
porém em graus menos elevados do que as anteriormente citadas. Os
exercícios contínuos suaves, geralmente aeróbios como caminhar,
pedalar ou nadar de forma lenta, possuem baixas sobrecargas e são
seguros para a maioria das pessoas. Mas a musculação suave é uma
atividade ainda mais adequada para pessoas debilitadas, com doenças
crônicas e baixos níveis de aptidão física, como é o caso de grande
parte da população idosa. Suportar o peso do corpo e caminhar pode
impor sobrecargas musculoesqueléticas excessivas para pessoas nessas
condições. Pedalar ou caminhar com alguma velocidade pode elevar
excessivamente a freqüência cardíaca. Assim sendo, os exercícios
resistidos estão cada vez mais sendo preferenciais em casos de
pessoas idosas debilitadas, não apenas em função da sua eficiência
em promover as adaptações mais importantes para a qualidade de vida,
mas também pelo elevado grau de segurança geral 1,2,5,10,15,26.
Aspecto relevante para corretos conceitos em fisiologia do exercício
é que embora os exercícios resistidos possam ser extremamente
suaves, a produção energética é do tipo anaeróbia, visto que mais de
40 % das fibras musculares são ativadas nas contrações. O conceito
de que exercícios anaeróbios são intensos e aeróbios são suaves é
válido apenas para atividades contínuas, não se aplicando às
atividades intervaladas como a musculação.
SEGURANÇA DOS EXERCÍCIOS RESISTIDOS
Os exercícios
resistidos podem ser definidos como “exercícios controlados”, porque
todos os fatores de sobrecarga são facilmente controlados 23. Por
essa razão, e pelos seus importantes efeitos fisiológicos, são
exercícios terapêuticos por excelência 15. As cargas são definidas
por aproximação sucessiva, e no caso de doenças ou lesões, devem ser
limitadas pelas sensações dolorosas. Os aparelhos para exercícios
resistidos permitem contrações musculares contra resistências muito
mais baixas do que as habituais em movimentos de ginástica
clássicos, onde atua o peso corporal, muitas vezes excessivo. A
adequação das amplitudes de movimento também é importante para
garantir a segurança dos exercícios resistidos. Em alguns casos deve
ser muito limitada, com apenas poucos graus de movimentação
articular, em função de dores. Tanto as cargas quanto as amplitudes
devem ser gradativamente aumentadas, em pequenos incrementos, sempre
que possível. Nos exercícios resistidos não ocorrem fatores de
lesões comuns em esportes como acelerações e desacelerações bruscas,
torções, impactos, traumas diretos e risco de quedas. O volume do
treinamento, dado pela duração das sessões e pela sua freqüência
semanal, pode ser também adequadamente adaptado às condições
individuais, e lentamente evoluir. Por todas essas razões, a
segurança musculoesquelética dos exercícios resistidos está
assegurada 14,15.
A segurança cardiovascular dos exercícios resistidos é garantida
pela adequação do duplo-produto às condições individuais 12. A
freqüência cardíaca (FC) nos exercícios resistidos em geral é menor
do que a habitual em exercícios contínuos. Fatores que podem
aumentar a FC nos exercícios resistidos são as repetições altas,
acima de dez, os intervalos de descanso entre séries curtos, abaixo
de um minuto, e o esforço máximo 14,15,21. Portanto, em treinamento
resistido para pessoas debilitadas ou em grupo de risco
cardiovascular, mantemos as repetições na faixa de oito a doze, os
intervalos entre séries entre um e dois minutos, e o grau de esforço
em nível sub-máximo, interrompendo os movimentos cerca de duas
repetições antes da falência muscular. A pressão arterial tende a
subir em todas as formas de exercício físico. Nos exercícios
contínuos a tendência é a elevação da pressão sistólica e queda ou
manutenção da diastólica. Nos exercícios resistidos a pressão
sistólica aumenta em picos no começo da contração concêntrica, e
pode atingir valores elevados nas contrações lentas em apnéia. Essa
situação caracteriza o esforço máximo em treinamento resistido, que
não é recomendado por prudência no caso de pessoas com risco de
acidentes cardiovasculares, mas que tem se mostrado inócua em testes
de carga máxima em idosos e cardiopatas de baixo e médio risco. Por
outro lado, durante exercícios resistidos a pressão arterial
diastólica tende a aumentar, sendo um dos fatores que explica a
menor incidência de intercorrências arrítmicas e isquêmicas em
coronarianos, comparativamente a exercícios aeróbios. O aumento da
pressão arterial diastólica durante os exercícios resistidos garante
maior fluxo coronariano. Outro fator explicativo da boa tolerância
cardiovascular dos exercícios resistidos com grau de esforço
sub-máximo é a menor freqüência cardíaca, que traduz menor trabalho
do coração, em relação a exercícios aeróbios. Outro fator de maior
segurança, sempre em comparação com exercícios aeróbios, é o menor
volume diastólico final dos ventrículos, que determina baixa pressão
de parede e conseqüentemente melhor circulação coronariana
sub-endocárdica. Isto ocorre porque nos exercícios resistidos o
retorno venoso está pouco aumentado e o volume diatólico final é
pequeno. Nos exercícios contínuos, onde a sobrecarga cardíaca é dita
“de volume”, em contraste com a sobrecarga “de pressão” dos
exercícios resistidos, o volume diastólico final é elevado, com
maior pressão de parede no miocárdio, e circulação coronariana
dificultada. A relação Pressão Diastólica / Duplo-Produto tem sido
considerada um bom indicativo da relação oferta/demanda de oxigênio
para o miocárdio e é francamente favorável aos exercícios resistidos
em relação aos exercícios aeróbios 6,12,21. Em um estudo com
coronarianos em processo de reabilitação cardíaca pós infarto do
miocárdio, a incidência de arritmias e/ou isquemia foi de 70% em
exercícios aeróbios e de apenas 3% em exercícios resistidos 12. Os
poucos casos de hemorragia cerebral documentados na literatura em
associação com treinamento de força foram atribuídos à ruptura de
aneurismas congênitos. Em mais de 26.000 testes de carga máxima
realizados em ambiente universitário nenhum caso de acidente
cardiovascular foi documentado. A manobra de Valsalva aumenta as
respostas pressóricas do exercício resistido e é considerada um
indicativo de grau de esforço inadequado para cardiopatas em geral.
Mas por outro lado, a apnéia aumenta a pressão externa sobre as
artérias torácicas, abdominais e cerebrais, diminuindo a
probabilidade de rupturas pelo equilíbrio das pressões transmurais
15. A segurança do treinamento resistido para pacientes com
disfunção ventricular esquerda moderada também tem sido estabelecida
28,29.
ESCOLHA DO TIPO DE ATIVIDADE FÍSICA
Do ponto de vista
do idoso, considerando a freqüente situação de comorbidades, a
indicação de atividade física deve considerar seus efeitos salutares
em geral e efeitos mais específicos para cada caso, mas também devem
ser levadas em conta as limitações e riscos individuais. A
preferência individual deve ser considerada, sempre que possível.
Para que a indicação de atividade física pelo profissional médico
seja adequada, é necessário o conhecimento de alguns aspectos
importantes.
Atividades
esportivas em geral podem ser muito úteis no contexto de promover
qualidade de vida para pessoas idosas, em todos os aspectos. No
entanto algumas considerações são necessárias: muitas atividades
esportivas não desenvolvem força e flexibilidade em níveis
adequados; muitos idosos não têm níveis de aptidão necessários para
a prática esportiva em geral; muitos idosos não tiveram experiência
prévia em ambiente esportivo, e apresentam dificuldades de adaptação
social nessas situações; mesmo com cuidados técnicos, com freqüência
não é possível evitar na prática esportiva as situações de risco
para lesões e para acidentes cardiovasculares. Traumas
músculo-esqueléticos são comuns em atividades que envolvem saltos,
arremessos, acelerações e desacelerações violentas, torções
articulares, quedas, impactos e movimentos excessivamente repetidos.
Fenômenos trombóticos são predispostos pelas atividades prolongadas
ao sol, que se acompanham de desidratação e acidose. Necrose
isquêmica de vilosidades intestinais e de papilas renais com
conseqüente perda crônica de sangue podem ocorrer nas atividades
excessivamente prolongadas. Isquemia do miocárdio pode ocorrer
quando a freqüência cardíaca sobe acima dos limites de tolerância
individuais. Ruptura de aneurismas ou de vasos cerebrais com
aterosclerose podem ocorrer quando o duplo-produto sobe
excessivamente durante a atividade. Depressão hormonal e imunológica
podem ser conseqüências de altos volumes de atividade física sem
recuperação adequada do organismo.
Nossa proposta em
atividade física para promoção de saúde no idoso 23 é a utilização
de programas simples de condicionamento físico com exercícios
resistidos, que possam estimular as aptidões importantes para a vida
diária confortável e segura, associando objetivos terapêuticos
quando necessário 1,8,15,18,28. O aprimoramento da aptidão física
do idoso com programas desse tipo pode tornar possível e mais segura
qualquer outra forma de atividade física. Nossa experiência no
CECAFI – Centro de Estudos em Ciências da Atividade Física, da
Disciplina de Geriatria da Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo, é no sentido de que esse tipo de programa para idosos tem
se mostrado muito eficiente e seguro para os objetivos mencionados,
mesmo para pessoas muito debilitadas e com muitas comorbidades.
Cerca de cinco ou seis aparelhos para exercícios resistidos com
sistema de alavancas para alívio de sobrecargas articulares, e com
graduação das amplitudes de movimentos para atender a necessidades
individuais, permitem ativar todos os grupos musculares de maneira
adequada para idosos. A área física necessária é de 20 à 30 m2, o
custo é acessível, e entre 15 e 18 pessoas podem ser atendidas em
cerca de uma hora, duas vezes por semana. Para todos recomendamos a
caminhada freqüente, desde que a força muscular esteja em níveis
compatíveis com a segurança na marcha. Como sabemos muitos idosos
gostam de dançar e alguns de atividades esportivas em modalidades
específicas. Apenas para os envolvidos em esportes recomendamos
treinamento aeróbio mais intenso.
Atualmente os programas de condicionamento físico para idosos estão
enfatizando cada vez mais os exercícios resistidos, em função da
documentação de suas qualidades 14,18. Aspecto que vem sendo muito
valorizado é a grande oportunidade de socialização proporcionada
pelas sessões de exercícios com pesos. Isto se deve à que os
exercícios, embora individuais, são realizados em grupos, onde cada
pessoa se sente companheira da outra, com um objetivo em comum que é
o treinamento. Os exercícios não produzem sensação de desconforto
respiratório e são interrompidos para intervalos de descanso,
favorecendo a interação verbal entre as pessoas.
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