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09/10/2007

ATIVIDADE FÍSICA E ENVELHECIMENTO

Dr. José Maria Santarem
Doutor em Medicina, Fisiatra e Reumatologista.
Coordenador do CECAFI - Centro de Estudos em Ciências da Atividade Física, da Disciplina de Geriatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Contato: Rua Teodoro Sampaio 417, 1° andar, sala 12, Cerqueira César - CEP 05450-000 - São Paulo, SP.
Tel (11) 3085-4396/ e-mail: cecafi@dim.fm.usp.br

 

Atividade física pode ser conceituada como contração muscular, independente de suas características e finalidades. A atividade física geralmente leva ao movimento, mas nem sempre: contração muscular isométrica é atividade física e não produz movimento articular. Exercício é uma atividade física mais estruturada, com objetivos a serem atingidos e técnicas específicas de realização. A atividade física é atualmente reconhecida como um importante fator promotor de saúde em todas as idades 19. Estudos epidemiológicos evidenciaram que as populações fisicamente ativas têm menor incidência de muitas doenças crônicas, entre elas a hipertensão arterial, obesidade, diabetes do tipo II, dislipidemia, osteoporose, sarcopenia, ansiedade e depressão 18. Conseqüentemente diminui a ocorrência de aterosclerose e suas consequências: doença coronariana, doença cérebro-vascular e doença vascular periférica. Quando as pessoas já apresentam essas doenças, como é o caso de muitos idosos, a atividade física pode ser um importante recurso auxiliar para o tratamento, reduzindo a necessidade ou as doses de fármacos em geral. A atividade física também tende a manter níveis adequados de aptidão física durante o envelhecimento, reduzindo o risco de quedas e permitindo a realização confortável e segura dos esforços da vida diária 15,16. As pessoas adequadamente ativas apresentam menor risco de confinamento no leito devido à fraturas ósseas ou incapacidade física, apresentando menor taxa de mortalidade por infecções pulmonares e tromboembolismo.

De maneira geral, a atividade física tem efeitos fisiológicos contrários aos do sedentarismo. A composição corporal tende a piorar no sedentarismo devido ao aumento do tecido adiposo e redução da massa óssea e da massa muscular. Todas as qualidades de aptidão física apresentam redução em seus níveis nas pessoas sedentárias, podendo dificultar a vida diária e reduzir o bem estar psicológico e social. O fato de que os efeitos do sedentarismo são lentamente instalados, explica porque pessoas jovens sedentárias não costumam ter consciência dos seus malefícios. Por outro lado, as pessoas idosas sentem os efeitos do sedentarismo nas limitações que encontram para a vida diária, e nas doenças crônicas manifestas.

Os efeitos salutares e terapêuticos da atividade física ocorrem devido a alguns mecanismos conhecidos e devido a outros ainda mal compreendidos 7,15. Entre eles estão a redução da pressão arterial de repouso principalmente devida à diminuição da sensibilidade adrenérgica dos vasos, o aumento da sensibilidade das células à insulina, a redução da gordura corporal devida ao maior gasto calórico e tendência à elevação da taxa metabólica basal, o aumento do HDL-colesterol, redução dos triglicerídeos, estímulo de fatores endoteliais de vasodilatação, redução da agregação plaquetária, estímulo à fibrinolise, estímulo ao metabolismo dos carboidratos, estímulo hormonal anabolizante, modulação imunológica, estímulo trófico músculo-esquelético, melhora da estabilidade articular dinâmica e analgesia neuro-endócrina.


SAÚDE CARDIOVASCULAR

A atividade física tem sido identificada como o mais importante fator ambiental favorável à saúde cardiovascular 30. Aspecto relevante é que a menor incidência de doenças sistêmicas crônicas que evoluem para a aterosclerose parece ser efeito comum de qualquer tipo de atividade física. A característica em comum de todos os tipos de atividade física é o gasto calórico. Assim sendo, são esperados efeitos salutares advindos do trabalho braçal, das diversas modalidades esportivas, do lazer com atividades físicas e dos programas sistematizados de condicionamento físico. Nas atividades físicas de baixa intensidade (pequeno gasto energético na unidade de tempo), o gasto calórico total é um parâmetro que parece manter proporcionalidade com a redução na incidência de doenças sistêmicas crônicas. Quanto mais calorias forem gastas em atividade física habitual maiores serão os benefícios para a saúde, mas as maiores diferenças na incidência de doenças ocorrem entre os sedentários e os pouco ativos. Entre estes e as pessoas mais ativas, a diferença não é grande.

Os chamados exercícios aeróbios, que são atividades contínuas e suaves, são populares e adequados para promoção de saúde cardiovascular. Como qualquer tipo de atividade física esses exercícios são eficientes para essa finalidade e são relativamente seguros mesmo para pessoas que já apresentam comorbidades ou baixos níveis de aptidão física. No entanto, exercícios aeróbios não são os mais eficientes para promover saúde cardiovascular 25 e também não são os mais seguros, tanto do ponto de vista cardiocirculatório 12,15 quanto do ponto de vista musculoesquelético 15. Trabalhos recentes têm documentado que atividades físicas mais intensas são mais eficientes em promover efeitos protetores cardiovasculares. Recente estudo 25 de coorte com 44.452 homens acompanhados por 12 anos, verificou que uma hora de corrida por semana reduziu o risco de doença arterial coronariana em 42%; uma hora de remo por semana, em 18%; e apenas meia hora por semana de musculação (treinamento resistido, geralmente realizado com pesos), em 23%. Atualmente já encontramos revisões sobre trabalhos que documentaram importantes efeitos protetores cardiovasculares do treinamento resistido 7. Aspecto que pode gerar alguma confusão de conceitos é que toda atividade física é promotora de saúde cardiovascular por diminuir a incidência ou ajudar a controlar doenças crônicas que evoluem para a degeneração vascular, mas apenas exercícios contínuos, aeróbios ou não, conseguem desenvolver de forma acentuada a chamada “aptidão cardiovascular”. Esta pode ser conceituada como a capacidade do coração e dos músculos esqueléticos suportarem aumento de função por tempo relativamente prolongado. Todavia, atletas de musculação apresentam aumento significante de alguns parâmetros hemodinâmicos e de função ventricular esquerda 1,4,13,22,29. Por outro lado, exercícios contínuos intensos como correr ou remar, e atividades intervaladas como a musculação intensa, não são adequadas para pessoas com doenças crônicas instaladas ou com baixos níveis de aptidão física. Exercícios aeróbios, musculação suave 14,26 ou outras atividades não intensas são as mais adequadas para pessoas debilitadas.

Pessoas idosas no entanto, com freqüência têm dificuldades para realizar exercícios aeróbios mesmo que suaves como caminhar. Dores articulares, vertigens, falta de equilíbrio e dispnéia podem ser os fatores limitantes nesses casos, não raros na população idosa. Para essa população, os exercícios resistidos estão sendo considerados os mais adequados não apenas pela possibilidade de realização, mas também pelos seus importantes efeitos, incluindo a promoção de saúde cardiovascular 9,11,14,18,24.


SAÚDE MÚSCULO-ESQUELÉTICA

Entendemos por saúde musculoesquelética a ausência de dores e uma boa capacidade funcional do ponto de vista biomecânico. Embora na dependência da individualidade biológica, o envelhecimento potencializado pelo sedentarismo tende a produzir processos degenerativos em cartilagens, ligamentos, tendões e músculos, além de reduzir a massa óssea. A atividade física em geral apresenta efeitos que se contrapõem aos anteriormente citados, mas os exercícios mais eficientes nesses aspectos são os exercícios resistidos 15. Sendo os aspectos neuromusculoesqueléticos de grande relevância para o bem estar das pessoas idosas, compreende-se a atual ênfase que se dá aos exercícios resistidos para essa população.

O estímulo da atividade física para aumento da massa óssea de deve às compressões dos ossos, e a efeitos hormonais ainda não bem esclarecidos. A compressão óssea pode ocorrer pelo suporte de pesos, como o peso do corpo ou de equipamentos, ou pelo impacto, que é a desaceleração brusca do corpo em movimento. Os exercícios com pesos são mais eficientes para estimular a massa óssea do que os exercícios com impacto. Aspecto relevante é que nos exercícios resistidos a compressão óssea ocorre sem impacto, portanto sem um importante fator de lesão nas atividades físicas. Essas qualidades dos exercícios resistidos têm sido consideradas em propostas terapêuticas e profiláticas para a osteoporose 15,18.

As cartilagens articulares, discos intervertebrais, ligamentos e tendões são estruturas cuja integridade é importante para a boa função musculosesquelética, e que é melhor estimulada pelos exercícios resistidos 14,15.

Todas as pessoas perdem massa muscular e força após a maturidade. A perda de massa muscular ocorre basicamente devido a processo degenerativo do sistema nervoso, que leva ao desaparecimento de motoneurônios no corno anterior da medula espinal. Dessa maneira, algumas fibras brancas entram em processo de atrofia. Com muita freqüência, associa-se a esse processo involutivo a hipotrofia de desuso, que não acomete apenas as pessoas sedentárias. As atividades físicas que não impõem aos músculos esqueléticos situações de tensão mais elevada, como por exemplo as atividades aeróbias, não impedem a hipotrofia de desuso no envelhecimento. Idosos que envelheceram praticando corrida e natação apresentaram parâmetros de saúde e aptidão superiores aos que envelheceram sedentários, mas a massa muscular decaiu nos mesmos níveis. No entanto, idosos treinados com pesos preservaram massa muscular 20. A diminuição da velocidade dos movimentos apresenta paralelismo com a redução de massa muscular e da força: idosos treinados em musculação preservaram também a velocidade dos movimentos 20. Sem estímulos adequados, são observadas importantes reduções de massa muscular durante o envelhecimento 2,15,17,20.

Gordura corporal em quantidades reduzidas é necessária não apenas para promoção de saúde cardiovascular mas também para não levar à sobrecargas excessivas no aparelho locomotor. Todos os tipos de atividade física contribuem para a redução do tecido adiposo. Condição indispensável para que ocorra mobilização da gordura corporal é o balanço calórico negativo, cujo principal mecanismo é a redução da ingestão alimentar. Sendo o tecido adiposo a principal forma de reserva de energia do organismo, compreende-se que quando faltam calorias na alimentação para suprir a demanda energética, ocorre mobilização de gordura corporal. A contribuição dos exercícios físicos em geral para o processo de emagrecimento decorre do aumento no gasto calórico diário. No caso dos exercícios resistidos, ocorre também o estímulo para aumento da taxa metabólica basal devido ao aumento da massa muscular. Acredita-se que a tendência das pessoas engordarem com a idade seja em grande parte devido à redução da taxa metabólica basal decorrente de perda progressiva de massa muscular. O fato de que a mobilização de gordura ocorre apenas pela via energética aeróbia, levou à conclusões precipitadas no sentido de que apenas os exercícios aeróbios estimulariam o emagrecimento. Na realidade, os exercícios não aeróbios levam à mobilização de gordura no período de repouso, que é uma situação de metabolismo aeróbio. Numerosos estudos documentam redução do tecido adiposo estimulada pelos exercícios resistidos, que a longo prazo podem ser mais importantes do que os exercícios aeróbios em função do aumento da massa magra 7,15.


APTIDÃO FÍSICA

As qualidades de aptidão como coordenação, velocidade, força, flexibilidade, potência, resistência e os parâmetros de condição aeróbia, são estimuladas de forma diferente pelas diversas formas de atividade física. Assim sendo, para alguns objetivos específicos, alguns tipos de atividade física poderão ser mais eficientes. O aprimoramento das qualidades de aptidão física tem evidente importância quando existe o objetivo de realizar grandes esforços, como no caso da prática esportiva. No entanto, os esforços da vida diária exigem aptidão em níveis adequados para que as atividades sejam possíveis e não representem fatores de desconforto ou risco de lesões músculo-esqueléticas e acidentes cardiovasculares 23.

O sedentarismo ou a hipocinesia induzida por doenças levam a uma redução gradativa e às vezes acentuada das qualidades de aptidão física, podendo comprometer seriamente a capacidade de realizar atividades diárias, dificultando a locomoção, aumentando os riscos de quedas e criando situações de risco cardiovascular nos esforços habituais 17. As qualidades de aptidão física que mais comprometem a qualidade de vida, quando reduzidas, são força e flexibilidade.

A importância da força muscular na qualidade de vida é grande e envolve mecanismos fisiológicos apenas há pouco tempo compreendidos. Do ponto de vista biomecânico, a força muscular é fundamental para a realização dos movimentos. Tomando como exemplo a ação de levantar-se de uma cadeira, sabe-se que uma pessoa idosa pode apresentar extrema dificuldade ou mesmo ser incapaz de realizar a atividade. A realização dos movimentos necessários para a vida diária depende de graus relativamente elevados de força muscular, o que não é percebido pelas pessoas mais jovens porque a força necessária está disponível. Particularmente o trabalho braçal, profissional ou doméstico, é muito dependente da força e da resistência dos músculos esqueléticos. Os exercícios mais utilizados para aumento da força dos músculos também são os mais eficientes para promover a chamada “RML” (Resistência Muscular Localizada), permitindo prolongar as atividades intensas.

A capacidade de manter o equilíbrio do corpo é importante para diminuir o risco de quedas 15,17. A redução da força muscular parece ser o principal responsável pelo aumento da incidência de quedas em pessoas idosas, tendo importância secundária a redução dos reflexos posturais. Mesmo com reflexos presentes, a queda pode ser inevitável se os efetores finais que são os músculos esqueléticos estiverem fracos. A capacidade de locomoção pode ser seriamente afetada pela redução da força muscular. Para a que a marcha seja possível, confortável e segura, a força é a aptidão mais importante 2. A capacidade de manutenção da postura, do equilíbrio e de aceleração para os passos dependem diretamente da força muscular. Resistência para caminhar significa poder prolongar a marcha confortavelmente. Esta condição depende da capacidade aeróbia, medida pelo limiar anaeróbio e muito estimulada pelo aumento da força muscular 2. O limiar anaeróbio é a intensidade de esforço acima da qual a produção energética não pode ser mantida apenas pela via metabólica aeróbia. Sempre que as fibras musculares individualmente apresentam discretos graus de força, a tensão necessária para o movimento é conseguida com o recrutamento de maior número de fibras. Pessoas fortes caminham com ativação de poucas unidades motoras, enquanto que pessoas fracas utilizam muitas fibras para a marcha. Quando mais do que 30 a 40% das fibras musculares são ativadas a produção energética não pode ser realizada exclusivamente pela via metabólica aeróbia porque a contração das fibras leva à oclusão parcial de vasos intramusculares e assim algumas fibras não recebem sangue e oxigênio. Muitos idosos debilitados caminham anaerobiamente, com desconforto por acidose metabólica e conseqüente fadiga precoce. O quadro clínico é o de claudicação intermitente, com o repouso permitindo continuar a marcha por mais algum tempo. Pessoas debilitadas tem limiar anaeróbio baixo porque pequenas intensidades de esforço já solicitam mais de 40% das fibras musculares. O aumento da força muscular aumenta o limiar anaeróbio, o que melhora a resistência para esforços de baixa intensidade, como caminhar 2.

Aspecto ainda pouco divulgado é que a força muscular também é importante para diminuir o risco de acidentes cardiovasculares nos esforços da vida diária. Isto ocorre porque as pessoas mais fortes realizam as atividades com menor número de fibras musculares, comparativamente com pessoas mais debilitadas. A utilização de menor número de unidades motoras ativa menos os ergoceptores musculares, que são terminações nervosas livres dispersas entre as fibras. A ativação dos ergoceptores desencadeia por mecanismos reflexos o aumento da freqüência cardíaca e da pressão arterial, além do aumento da freqüência respiratória. Assim sendo, pessoas mais fortes realizam tarefas com menores alterações hemodinâmicas do que pessoas debilitadas, apresentando nos esforços menores valores de duplo-produto (Freqüência Cardíaca x Pressão Arterial Sistólica). Portanto, as pessoas com músculos mais fortes realizam esforços com menores riscos cardiovasculares e com maior conforto respiratório 1,10. Esta é a base da aplicação crescente dos exercícios resistidos em pacientes coronarianos e com insuficiência cardíaca 5,12.

A redução da flexibilidade pode dificultar a realização de movimentos ou até mesmo impedi-los. No entanto, mesmo na presença de processos degenerativos ou inflamatórios crônicos das articulações, é possível promover ganhos de flexibilidade. Aspecto relevante é que os exercícios resistidos, tão eficientes para aumentar a força muscular, também promovem ganhos de amplitude articular, até os limites permitidos pelas alterações patológicas 3.

O VO2 máximo é um parâmetro metabólico de aptidão, necessário para prolongar atividades com produção energética relativamente elevada, como é o caso de correr, pedalar ou nadar. Esse parâmetro é uma variável diretamente associada com níveis de saúde, mas a relação não é de causa e efeito. As pessoas com níveis elevados de atividade física do tipo contínua costumam apresentar bons indicadores de saúde e VO2 máximo elevado. Pessoas com outros tipos de atividade física podem ter os mesmos estímulos salutares, mas com menores níveis de VO2 máximo. No caso das pessoas idosas com limitações patológicas ou de aptidão que impedem exercícios contínuos, não deve haver preocupação com os níveis de VO2 máximo, desde que outras atividades físicas estejam sendo realizadas 1. Exercícios resistidos conseguem elevar o VO2 máximo de forma discreta em jovens, mas em idosos aumentos de até 23% já foram documentados 27. Além do VO2 máximo, outros parâmetros de aptidão cardiovascular são estimulados pelos exercícios resistidos 1,4,13,22,29.


SEGURANÇA DOS EXERCÍCIOS FÍSICOS

A segurança de qualquer atividade física é dada pela adequação correta das sobrecargas às condições físicas dos praticantes 14,26. Exercícios intensos, com grande produção energética na unidade de tempo têm geralmente sobrecargas elevadas. Nas atividades menos intensas as sobrecargas são menores e portanto exercícios suaves são mais adequadas às pessoas debilitadas. As sobrecargas musculoesqueléticas são as compressões, trações, torções, impactos, e repetições. As sobrecargas cardiovasculares são o aumento da freqüência cardíaca e da pressão arterial. Considerando as atividades esportivas mais comuns, os jogos com bola e as lutas em geral são as modalidades com maiores sobrecargas musculoesqueléticas. Os exercícios contínuos intensos como correr, pedalar e nadar são as atividades com maiores sobrecargas cardiovasculares. A musculação intensa tem sobrecargas consideráveis, tanto musculoesqueléticas quanto cardiovasculares, porém em graus menos elevados do que as anteriormente citadas. Os exercícios contínuos suaves, geralmente aeróbios como caminhar, pedalar ou nadar de forma lenta, possuem baixas sobrecargas e são seguros para a maioria das pessoas. Mas a musculação suave é uma atividade ainda mais adequada para pessoas debilitadas, com doenças crônicas e baixos níveis de aptidão física, como é o caso de grande parte da população idosa. Suportar o peso do corpo e caminhar pode impor sobrecargas musculoesqueléticas excessivas para pessoas nessas condições. Pedalar ou caminhar com alguma velocidade pode elevar excessivamente a freqüência cardíaca. Assim sendo, os exercícios resistidos estão cada vez mais sendo preferenciais em casos de pessoas idosas debilitadas, não apenas em função da sua eficiência em promover as adaptações mais importantes para a qualidade de vida, mas também pelo elevado grau de segurança geral 1,2,5,10,15,26. Aspecto relevante para corretos conceitos em fisiologia do exercício é que embora os exercícios resistidos possam ser extremamente suaves, a produção energética é do tipo anaeróbia, visto que mais de 40 % das fibras musculares são ativadas nas contrações. O conceito de que exercícios anaeróbios são intensos e aeróbios são suaves é válido apenas para atividades contínuas, não se aplicando às atividades intervaladas como a musculação.


SEGURANÇA DOS EXERCÍCIOS RESISTIDOS

Os exercícios resistidos podem ser definidos como “exercícios controlados”, porque todos os fatores de sobrecarga são facilmente controlados 23. Por essa razão, e pelos seus importantes efeitos fisiológicos, são exercícios terapêuticos por excelência 15. As cargas são definidas por aproximação sucessiva, e no caso de doenças ou lesões, devem ser limitadas pelas sensações dolorosas. Os aparelhos para exercícios resistidos permitem contrações musculares contra resistências muito mais baixas do que as habituais em movimentos de ginástica clássicos, onde atua o peso corporal, muitas vezes excessivo. A adequação das amplitudes de movimento também é importante para garantir a segurança dos exercícios resistidos. Em alguns casos deve ser muito limitada, com apenas poucos graus de movimentação articular, em função de dores. Tanto as cargas quanto as amplitudes devem ser gradativamente aumentadas, em pequenos incrementos, sempre que possível. Nos exercícios resistidos não ocorrem fatores de lesões comuns em esportes como acelerações e desacelerações bruscas, torções, impactos, traumas diretos e risco de quedas. O volume do treinamento, dado pela duração das sessões e pela sua freqüência semanal, pode ser também adequadamente adaptado às condições individuais, e lentamente evoluir. Por todas essas razões, a segurança musculoesquelética dos exercícios resistidos está assegurada 14,15.

A segurança cardiovascular dos exercícios resistidos é garantida pela adequação do duplo-produto às condições individuais 12. A freqüência cardíaca (FC) nos exercícios resistidos em geral é menor do que a habitual em exercícios contínuos. Fatores que podem aumentar a FC nos exercícios resistidos são as repetições altas, acima de dez, os intervalos de descanso entre séries curtos, abaixo de um minuto, e o esforço máximo 14,15,21. Portanto, em treinamento resistido para pessoas debilitadas ou em grupo de risco cardiovascular, mantemos as repetições na faixa de oito a doze, os intervalos entre séries entre um e dois minutos, e o grau de esforço em nível sub-máximo, interrompendo os movimentos cerca de duas repetições antes da falência muscular. A pressão arterial tende a subir em todas as formas de exercício físico. Nos exercícios contínuos a tendência é a elevação da pressão sistólica e queda ou manutenção da diastólica. Nos exercícios resistidos a pressão sistólica aumenta em picos no começo da contração concêntrica, e pode atingir valores elevados nas contrações lentas em apnéia. Essa situação caracteriza o esforço máximo em treinamento resistido, que não é recomendado por prudência no caso de pessoas com risco de acidentes cardiovasculares, mas que tem se mostrado inócua em testes de carga máxima em idosos e cardiopatas de baixo e médio risco. Por outro lado, durante exercícios resistidos a pressão arterial diastólica tende a aumentar, sendo um dos fatores que explica a menor incidência de intercorrências arrítmicas e isquêmicas em coronarianos, comparativamente a exercícios aeróbios. O aumento da pressão arterial diastólica durante os exercícios resistidos garante maior fluxo coronariano. Outro fator explicativo da boa tolerância cardiovascular dos exercícios resistidos com grau de esforço sub-máximo é a menor freqüência cardíaca, que traduz menor trabalho do coração, em relação a exercícios aeróbios. Outro fator de maior segurança, sempre em comparação com exercícios aeróbios, é o menor volume diastólico final dos ventrículos, que determina baixa pressão de parede e conseqüentemente melhor circulação coronariana sub-endocárdica. Isto ocorre porque nos exercícios resistidos o retorno venoso está pouco aumentado e o volume diatólico final é pequeno. Nos exercícios contínuos, onde a sobrecarga cardíaca é dita “de volume”, em contraste com a sobrecarga “de pressão” dos exercícios resistidos, o volume diastólico final é elevado, com maior pressão de parede no miocárdio, e circulação coronariana dificultada. A relação Pressão Diastólica / Duplo-Produto tem sido considerada um bom indicativo da relação oferta/demanda de oxigênio para o miocárdio e é francamente favorável aos exercícios resistidos em relação aos exercícios aeróbios 6,12,21. Em um estudo com coronarianos em processo de reabilitação cardíaca pós infarto do miocárdio, a incidência de arritmias e/ou isquemia foi de 70% em exercícios aeróbios e de apenas 3% em exercícios resistidos 12. Os poucos casos de hemorragia cerebral documentados na literatura em associação com treinamento de força foram atribuídos à ruptura de aneurismas congênitos. Em mais de 26.000 testes de carga máxima realizados em ambiente universitário nenhum caso de acidente cardiovascular foi documentado. A manobra de Valsalva aumenta as respostas pressóricas do exercício resistido e é considerada um indicativo de grau de esforço inadequado para cardiopatas em geral. Mas por outro lado, a apnéia aumenta a pressão externa sobre as artérias torácicas, abdominais e cerebrais, diminuindo a probabilidade de rupturas pelo equilíbrio das pressões transmurais 15. A segurança do treinamento resistido para pacientes com disfunção ventricular esquerda moderada também tem sido estabelecida 28,29.


ESCOLHA DO TIPO DE ATIVIDADE FÍSICA

Do ponto de vista do idoso, considerando a freqüente situação de comorbidades, a indicação de atividade física deve considerar seus efeitos salutares em geral e efeitos mais específicos para cada caso, mas também devem ser levadas em conta as limitações e riscos individuais. A preferência individual deve ser considerada, sempre que possível. Para que a indicação de atividade física pelo profissional médico seja adequada, é necessário o conhecimento de alguns aspectos importantes.

Atividades esportivas em geral podem ser muito úteis no contexto de promover qualidade de vida para pessoas idosas, em todos os aspectos. No entanto algumas considerações são necessárias: muitas atividades esportivas não desenvolvem força e flexibilidade em níveis adequados; muitos idosos não têm níveis de aptidão necessários para a prática esportiva em geral; muitos idosos não tiveram experiência prévia em ambiente esportivo, e apresentam dificuldades de adaptação social nessas situações; mesmo com cuidados técnicos, com freqüência não é possível evitar na prática esportiva as situações de risco para lesões e para acidentes cardiovasculares. Traumas músculo-esqueléticos são comuns em atividades que envolvem saltos, arremessos, acelerações e desacelerações violentas, torções articulares, quedas, impactos e movimentos excessivamente repetidos. Fenômenos trombóticos são predispostos pelas atividades prolongadas ao sol, que se acompanham de desidratação e acidose. Necrose isquêmica de vilosidades intestinais e de papilas renais com conseqüente perda crônica de sangue podem ocorrer nas atividades excessivamente prolongadas. Isquemia do miocárdio pode ocorrer quando a freqüência cardíaca sobe acima dos limites de tolerância individuais. Ruptura de aneurismas ou de vasos cerebrais com aterosclerose podem ocorrer quando o duplo-produto sobe excessivamente durante a atividade. Depressão hormonal e imunológica podem ser conseqüências de altos volumes de atividade física sem recuperação adequada do organismo.

Nossa proposta em atividade física para promoção de saúde no idoso 23 é a utilização de programas simples de condicionamento físico com exercícios resistidos, que possam estimular as aptidões importantes para a vida diária confortável e segura, associando objetivos terapêuticos quando necessário 1,8,15,18,28. O aprimoramento da aptidão física do idoso com programas desse tipo pode tornar possível e mais segura qualquer outra forma de atividade física. Nossa experiência no CECAFI – Centro de Estudos em Ciências da Atividade Física, da Disciplina de Geriatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, é no sentido de que esse tipo de programa para idosos tem se mostrado muito eficiente e seguro para os objetivos mencionados, mesmo para pessoas muito debilitadas e com muitas comorbidades. Cerca de cinco ou seis aparelhos para exercícios resistidos com sistema de alavancas para alívio de sobrecargas articulares, e com graduação das amplitudes de movimentos para atender a necessidades individuais, permitem ativar todos os grupos musculares de maneira adequada para idosos. A área física necessária é de 20 à 30 m2, o custo é acessível, e entre 15 e 18 pessoas podem ser atendidas em cerca de uma hora, duas vezes por semana. Para todos recomendamos a caminhada freqüente, desde que a força muscular esteja em níveis compatíveis com a segurança na marcha. Como sabemos muitos idosos gostam de dançar e alguns de atividades esportivas em modalidades específicas. Apenas para os envolvidos em esportes recomendamos treinamento aeróbio mais intenso.

Atualmente os programas de condicionamento físico para idosos estão enfatizando cada vez mais os exercícios resistidos, em função da documentação de suas qualidades 14,18. Aspecto que vem sendo muito valorizado é a grande oportunidade de socialização proporcionada pelas sessões de exercícios com pesos. Isto se deve à que os exercícios, embora individuais, são realizados em grupos, onde cada pessoa se sente companheira da outra, com um objetivo em comum que é o treinamento. Os exercícios não produzem sensação de desconforto respiratório e são interrompidos para intervalos de descanso, favorecendo a interação verbal entre as pessoas.


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